Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Desenredarmo-nos de um passado inadequado

por Nuno Cunha Rolo, em 15.03.13
As recentes sondagens sobre políticas e políticos e partidos, embora sejam multicontextuais, são excelentes despertadores para aqueles que (ainda) pensam que a mudança na política e de políticas (que é consensual) se bastará com umas alterações de casuísticos remendos a grandes leis pensadas com mentalidade de séculos passados. Qualquer mudança a fazer-se no sistema político pode ser feita, mas é insuficiente se não for definida visão com a simplicidade dos comuns, justificada por valores publicamente aceites e implementada com princípios eficazes face à actualidade e conforme os fins e valores a ela subjacentes. Por isso, qualquer ordem de mudança do sistema tem de ser feita numa nova direcção, sob desígnios últimos bem definidos e propostos em nome de e para cidadãos comuns e gerações futuras.

Não bastam novas ideias, novos protagonistas, novas políticas e vice-versa, apesar de serem imprescindíveis. São necessárias sobretudo ideias, capacidades e resultados novos, de hoje às próximas décadas, que aumentem o bem-estar, riqueza e prosperidade do país e das pessoas, a eficácia e 'inteligência' das políticas e do capital social, que criem ambientes fecundos de grandes lideranças e de participação na rede de valor público multiplicador das políticas públicas, ex ante e ex post.

Isto exige uma (nova) visão e agenda de política e políticas públicas fazíveis e de futuro, mesmo que sem prática governativa presente. Este futuro deve ter um nome para fazer a síntese da acção. Um nome para além de um slogan ou de uma frase, embora deva nelas ser traduzido. Um nome que compreenda e comunique, sem medo, uma ideologia actualizada e renovadora. Não hão-de ser as ideias "analógicas" que criarão valor com o digital, e muito menos contribuirão para o futuro pós-digital! Não são as ideias "mal-burocráticas", que vão tornar as organizações "eficazes"! Não hão-de ser os peritos das manigâncias da influência e da cunha, e em corrupção que serão os exemplos e os precursores da transparência, abertura, prestação de contas, integridade ou responsabilização da acção pública! Mas até estes podem mudar, pois são especialistas do sistema, e assim úteis para a iniciação de um ciclo de renovação ideológica, cultural e comportamental, integrado num projecto inspirador, aberto e visionário.

O sucesso das respostas a desafios antigos não repete as mesmas soluções. Há um novo trabalho a fazer-se, há novas formas de pensar e agir, porque há problemas novos a enfrentar (o altíssimo e crescente desemprego, o ‘giga’endividamento nacional e o envelhecimento da população são meros três exemplos). Novos problemas, logo, novas políticas, mentalidades, regras e práticas. Fazer a síntese da visão com os cidadãos é dever dos partidos políticos, mas também dos cidadãos, individualmente e para com os partidos. A síntese pode ser o resultado de um esforço colectivo de projecção e construção da riqueza política e pública nacional em duas legislaturas. É muito tempo? Não, é até curto para o que há a ganhar. A concorrência é muita (nacional e internacional) e complexa (comentadores, media, sindicatos, associações, grupos de interesse, militantes, personalidades), mas garantido só está o insucesso que resulta, por exemplo, de fazer dos meios (finanças, orçamentos, economia) fins, numa ausência nefasta de qualquer visão da acção governativa! Em muitos há medos, resistências e desconfianças, pois é agir no incerto, mover-se no terreno do não reconhecimento imediato, é trabalhar sobre algo que ainda não existe, ou colocar em perigo o seu 'lugar' no sistema. Porém, juntos, estes 'prejuízos' serão menores e a cultura pode mudar, para alguns fazerem 'reset' da sua conduta e prioritização de interesses. Começar por se questionar em que sistema de governação do país e da comunidade quer estar, viver e conviver é já desenredar-se de um passado inadequado.

Os projectos e as pessoas intemporais fizeram-se antes do seu tempo, sobretudo em tempo de descrença, desespero e de crise. Temos de fazer hoje a síntese do futuro e da mudança, mas uma síntese vanguardista e ideológica audaz. Acordem-se os fins e os meios se levantarão. Começar a estar presente, agir em conformidade, fazer ‘aconteSer’, é sempre o início da nossa 'inscrição' e o fim de algo com o qual não nos identificamos. O desabafo e a crítica não comprometem. Lutar, ou seguir alguém, por aquilo em que se acredita, sim. Quem dedica parte da sua vida a inscrever aquilo em que acredita, é, como qualquer empreendedor social, um vencedor, porque vencer é não desistir da sua visão.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pessoas, projectos...país!

por Nuno Cunha Rolo, em 18.02.13
Um dos critérios de avaliação de pessoas capazes de transformar reflexão em acção, agregadoras portanto das competências de liderança e execução, é a capacidade de reflectir e dialogar, consigo e com os outros, em ordem à realização de uma visão passível de ser comum.

Um dos critérios de avaliação de projectos capazes de transformar planos em resultados, agregadores portanto de acção humana e de resultados verificados, é a integridade dos comportamentos e competências dos seus membros em face da visão comummente delineada.

Na vida, nem todos o conseguem, mas todos podem consegui-lo.
Quem está habituado a participar, liderar, gerir (e fundar) equipas, grupos ou organizações provavelmente discerne e supera facilmente o mero alcance semântico destes critérios, mas num país onde ainda uma parte da pequena elite dominante é egocêntrica, carreirista, aduladora, passadista e, portanto, desqualificada de competências de liderança, gestão e de valores públicos humanos, comunitários e inovadores - de pessoas e projectos -, não é de admirar a crescente dificuldade da saída portuguesa da actual crise com sucesso, individual e nacional.

Na política, é como na vida.
Subsumir o exposto à actual governância nacional é já uma banalidade, decisivo para o país é o que se seguirá. E o que se seguirá depende do que hoje se fizer. Este sim vai ser o período mais importante da vida dos portugueses (sobre)vivos. O princípio começa no projecto e com as pessoas, todas elas, incluindo a captação das citadas elites baforentas, pois elas possuem o poder permitido e agem maioritariamente por padrões sistémicos herdados de antecessores e mimetizados por colegas de 'ofício'.

Há algumas novas maneiras de trabalhar que já começaram, ao estilo bottom-up, próximas do modelo nórdico, de trabalhar e criar. Não é um estilo para todos também, porque é um exercício humilde, igualitário, de base zero, e para muitos é algo inútil, de menor e incomoda os 'experientes', 'especialistas', numa palavra os mais instalados, mas é decisivo todos superarem os mitos dos curricula para que o essencial não fique na mesma. Se cada um superar as suas crenças inibidoras destes caminhos, conseguirão elevar-se com os desafios iminentes.

Surpreendentemente, julgo que nunca vivemos tempos tão ricos para a clarificação do futuro do país!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Uma nova síntese política ou porque dormi irrequieto esta noite |

por Nuno Cunha Rolo, em 07.10.12
Precisamos de novas sínteses para a acção política. Nenhuma está actualizada. Da liberal à conservadora, da estatista à privatista, não há narrativas actualizadas e ideológicas suficientemente explicativas e compreensivas da realidade complexa e interdependente que nos acossa e sejam capazes de transformar a nossa maneira de pensar sobre o papel do cidadão, do governo e da sociedade. Também não sabemos os limites da mudança dos serviços e abonos públicos que nos são prestados, dos nossos confortáveis hábitos de vida e bem-estar, do nosso envolvimento e compromisso das decisões diárias que tomamos e das acções políticas que reivindicamos.

Precisamos de uma nova 'história', ou no mínimo de uma renovada, porque da actual só sabemos que não pode continuar e que ninguém sozinho pode alterá-la. Sabemos pouco, mas precisamos muito desse saber.

Vejo e leio as recentes manifestações cívicas e da opinião pública algo parecido com os últimos pedidos dos condenados dirigidos aos seus co-responsáveis: mudem os processos, renovam políticos e políticas, abram-se à sociedade, estudem e avaliem as melhores políticas públicas, trabalhem e discutam em conjunto e amiúde, com audácia, e por uma esperança maior que valha todos os sacrifícios equitativos, porque os portugueses já deram provas daquilo que fazem pelos seus filhos e concidadãos e porque, no mundo que conhecemos e no país que temos, a sociedade democrática é governada pelos partidos e pelos políticos. E eu gostava que continuasse assim. E não gosto de insónias, mas confesso que a ideia das massas, por um dia intempestivo, passarem de representados a governantes me faz inquietar sobre o futuro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Adeus, Maquiavel!

por Nuno Cunha Rolo, em 02.10.12
Como se diz a alguém que o mundo onde cresceu já não funciona pelas forças, valores e certezas nas quais cresceu e viveu? Como viver por dentro de algo que não se compreende, concorda e combate? Como se convence alguém a vencer numa realidade que não foi a sua? Como se evita a morte interior daquilo que amamos e somos?

Duvido que alguém possa mudar tudo sozinho e duvido que um político possa mudar Portugal, sobretudo em normalidade democrática. O que acho é que um, somente um, pode fazer a diferença nessa mudança, em qualquer contexto. Essa diferença advém do desempenho de certas qualidades que hoje são absolutamente cruciais para se superar o “contexto” e o ambiente que quotidianamente enfrentam. Essas qualidades “contextuais” e “ambientais”, sem as quais o sucesso ou a realização política são mera miragem. Dentre outras, considero a liderança, a comunicação e o conhecimento aplicado do comportamento humano (interacção, empatia, carisma). Hoje, até um Churchill se via aflito para comandar, pelo escrutínio, exposição, acessibilidade à vida pública e privada. Nem há tempo para se provar o contrário: o que parece, é. Daí que há que ajustar a personalidade (sem colidir com o nuclear daquilo em que se acredita) às (melhores) qualidades adequadas à realidade que se tem e à visão do que deseja. Para um político, isto é crítico; para um governante é fatal e é trágico para os respectivos governados quando ela rareia. E se à vertigem mediática, cultural e tecnológica, adicionarmos a crise económica e política, o destino pode ser o desterro político e a pobreza popular!

Perceba-se que o paradigma do poder e da governação mudou, não é já o do tempo da história ou da nossa juventude. Há quem insista numa lógica de Adeus Lenine para sair da crise, nomeadamente as instituições governativas europeias e mundiais, e são raras as vozes (políticas) da diferença. Infelizmente, são poucas as políticas e governantes que sendo deste mundo, procuram seguir o caminho de ajustamento da realidade ao novo paradigma. Certo é que, hoje, por muito que todos e cada um tenham solução para a crise, nas ruas ou nas redes, mesmo que todos e cada um saiba o que não quer, ninguém avança sem perceber o mundo que o rodeia, as qualidades, conteúdos e valores exigiveis à acção política. O tempo urge, mas a agregação dos saberes pode fazer-se, pois ele existe, a questão é que está fragmentado. Perceber esta assimilação é melhor que não perceber, porque estou convencido que a melhor política fracassa, a melhor mensagem se perde, o mais bem intencionado esmorece, quando não se encontram respostas para a incompreensão.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Que se lixem as "culpas"!

por Nuno Cunha Rolo, em 28.09.12
E a culpa é de governos anteriores? A culpa é de Sócrates e do governo anterior? E a culpa é dos políticos? Sim, e a culpa é de Salazar? E a culpa é do Marquês de Pombal? E a culpa é dos Filipes? E a culpa é de Afono Henriques?... e a culpa é dos macacos?!!

Que porra de desculpas, sobretudo para aqueles que nunca fizeram ou fazem nada pelo seu país, comunidade, vizinhança, etc... Pior, muitos provavelmente até estão na primeira fila do escárnio, da censura, da crítica, da mentalidade arcaica, negativa, mesquinha ou da politiquinha da humilhação, do bloqueio, da cunha e anti-cunha, da difamação, da hipocrisia, etc, etc..e há muitos por aí ainda infelizmente… Eu desaprovo estes, mas não posso, nem quero agora estigmatizá-los porque todos precisamos da maior parte. Estamos todos no mesmo barco. Estamos todos no mesmo barco do camarote ao casco! Da popa à proa! No topo ou na base, da esquerda à direita, estamos todos dentro dele! E não é, ou não deve ser, uma questão de culpa! É uma questão de futuro, que parte da responsabilização individual e colectiva, caso contrário até constitui uma ofensa a quem usa a testa para pensar, dizer-se que tudo cabe a um governo e o resto é paisagem e bananas! Numa democracia, não decidem todos tudo, todos decidem o essencial e alguns, os escolhidos, decidem o principal e o acessório. A sociedade política somos todos nós, não é só feita de políticos. Então e os cidadãos e organizações? Não existem? Não têm poder? Mas não é este o mundo globalizado, digital e plano? A primavera árabe não foi causada pelo acto de uma só pessoa, o tunisino Mohamed Bouazizi?!

As políticas erradas devem ser democraticamente combatidas, as decisões ilegais devem ser legalmente sancionadas e os decisores de actos criminosos devem ser penalmente julgados e condenados, do funcionário ao presidente da república. Ninguém deve ficar de fora. Mas o discurso de que a culpa do estado da nação é de passados governantes, do Estado ou desta ou daquela elite, para além de afrontoso à inteligência popular, é uma falácia argumentativa e esconde uma não-inscrição política social ou humana dos cidadãos, se não mesmo uma alienação. O que é legítimo, refira-se, mas então que ‘fale-se pelo exemplo’. E mesmo que se admita a verdade parcial das “culpas”, estas só servem para construir nadas positivos e vazios colectivos, terrenos férteis para o autoritarismo, o mau-estar social, a pobreza e a fome das maiorias do costume, que têm, refira-se, aumentado em Portugal!

A sociedade não se faz de um individuo, pater familias ou político. Esse tempo já lá vai. Só há uma maneira de ter o nosso destino nas mãos: é reunir a maioria, dedicada, comprovada e alargada, socialmente representada, com sentido de comunhão, razão e bom senso, e construir um projecto de acção e equidade política agregador da maioria e superador da crise. Crise que não depende, nem dependeu, de nós, apesar dos nossos erros. Por isso, deve agir-se em três frentes: nacional, europeia e internacionalmente. Os países têm governos mas já não existe “a” governação nacional ou “a” política nacional. Admitir que a política não é dos políticos, que ela depende de cidadãos activos e as políticas reflectem a qualidade da cidadania e da política, é dar primeiros passos para a acção curativa concertada que o país precisa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sobre o moralismo do "modo de vida" do povo e o alarmismo da dívida!

por Nuno Cunha Rolo, em 13.09.12
“Conservative bankers regard it as more consonant with their cloth, and also as economizing thought, to shift public discussion of financial topics off the logical on to an alleged ‘moral’ plane, which means a realm of thought where vested interest can be triumphant over the common good without further debate.” 

"A Tract on Monetary Reform", John Maynard Keynes

Autoria e outros dados (tags, etc)

Petição do Diário Económico

por Nuno Cunha Rolo, em 13.09.12
Estou completamente a favor do conteúdo essencial desta Petição, e apetecia-me assina-lá agora, mas o meu sentido de democrata diz-me para não o fazer. Porquê? Porque o seu autor é, imagine-se, um jornal! Primeiro ainda pensei que fosse um engano ou que seria indicado o seu nome de forma abusiva ou incorrecta, por exemplo, ainda pensei que fosse os jornalistas do Diário Económico (DE) os seus auto
res, o que não deve confundir-se com o jornal, embora esta solução me cause também alguns calafrios. Posso estar enganado, posso não estar a ver bem as coisas, pode estar a escapar-me alguma coisa, mas confesso que não gosto de ver jornais (jornalistas ainda vá, embora discorde também disso) a fazer política! Política formal. Um jornal, entendo eu, pode apoiar este ou aquele candidato, esta ou aquela ideologia, de forma explícita ou implícita, sou completamente a favor disso, por isso prefiro o "ambiente" anglo-saxónico no que respeita a essa cultura de liberdade e responsabilidade. Mas uma Petição é um "direito político", de "participação política", ou alguém desconhecia isso? Não devemos confundir as coisas, apesar do mundo contemporâneo se compadecer cada vez menos com as minudências, sobretudo jurídicas, mas não confundamos um jornal e os seus jornalistas, a forma com o conteúdo, independentemente do que forem as nossas opiniões e posições na matéria. Eu, por exemplo, sou a favor do essencial do conteúdo, mas totalmente contra a sua forma, designadamente na dimensão da autoria.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A lava da corrupção

por Nuno Cunha Rolo, em 15.06.12
Somos um país pobre de dinheiro e rico em capital humano. Mas por vezes esse capital extravasa os limites das leis penais. O último relatório do Transparency é assustador. Como nele se refere, a corrupção está a afectar cada vez mais os cidadãos comuns, no seu dia-a-dia, também em Portugal. Eu materializo: a corrupção está a destruir pessoas, famílias e empresas e, com a crise económica e social, está a expandir-se explosivamente. Não estar alinhado com ela ou lutar contra ela, ou falar dela sequer, constituem posições de risco, se não mesmo de grande sacrifício pessoal e profissional. As pessoas não querem perder o cargo, o emprego, a sua imagem de (bem)sucedido profissionalmente perante si, sua família, seus amigos. As pessoas são obrigadas a escolher entre enterrar o seu capital humano, a sua criatividade, a sua liberdade, a sua esperança numa vida melhor e o de servir as espumas do quotidiano controladas por elites unicamente focadas na manutenção e aumento do seu poder. E aqui o combate é ganho por aqueles que contam com a resignação, a indolência, a descrença, a alienação dos que votam, opinam e trabalham, mas que, felizmente, não têm tempo, saber, poder ou determinação suficientes para melhor mudar! Os corruptos contam com isso e contam também em participar no próprio processo de combate à corrupção para não desmentir a célebre frase de Tancredi, Princípe de Falconeri em O Leopardo.

Cada português tem que tomar consciência e responsabilizar-se pelas decisões e cedências que toma, por acção e por omissão, nos apoios e críticas que faz nos seus espaços de (com)vivência e intervenção (sufrágio, redes sociais, activismo cívico, etc). Se não o quer fazer activamente, no mínimo, deve ajudar quem procura combater este vulcão criminoso. A corrupção é como a massa do vulcão: pressiona o substrato como manto, transforma-se em magma depois de o quebrar e rompe a crosta em lava. E durante todo o processo consome a estrutura e os recursos do vulcão. Ela está e estará portanto sempre presente na nossa sociedade, pressionando, queimando, irrompendo, em indivíduos, famílias, empresas, e demais organizações e instituições; numa palavra, consome o que somos e o que podemos ser. A corrupção empobrece-nos e submerge-nos numa batalha individual e comunitária dura e latente. A lava não se expurga: ou se previne ou nos destrói.

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

por Nuno Cunha Rolo, em 25.05.12
.

Autoria e outros dados (tags, etc)

1.º Pingo de Maio

por Nuno Cunha Rolo, em 02.05.12

A notícia secreta do feriado de ontem… "Era uma vez, no primeiro dia de maio, um supermercado chamado de Pingo Doce ofereceu 50% de
desconto em compras superiores a 100€..." pode ser o início de qualquer coisa, pode vir a ser mesmo o grande primeiro acto de outras semelhantes (talvez um dia o “Dia do Trabalhador” seja substituído pelo “Dia do Consumidor”), mas este post vai ter outro enfoque, menos lucrativo é certo, que é a “moral” da narrativa comunicativa com que é tratada. A história ocorrida ontem, numa espécie de "1.º Pingo de Maio" constitui um excelente exemplo de como as narrativas são actualmente mediáticas, globais, sistémicas e, crescentemente, “primárias”. Tornam-se assim facilmente fenómenos de "comunicação".

No caso em apreço, relacione-se, por exemplo, o meio de publicitação mais antigo do mundo - o "boca a boca" - hoje tecnológico, e a radical afluência e comportamentos dos interessados. Nada do que ocorreu ontem deveria ser surpreendente, excepto, talvez, os atropelos ao civismo. Na verdade, todos os actores (empresa, empresários, consumidores, trabalhadores) ajustaram as suas escolhas com base em necessidades e preferências que são justificadas pela racionalidade, sobretudo os consumidores (quem rejeita um desconto de 50%?), e potenciadas pela crise económica e social (como podem as classes mais pobres desperdiçar esta oportunidade de comer e beber - de “consumir” - mais e melhor?).

A principal ordem de críticas ou de julgamentos é a que assenta na falta de dignidade por se estar em "filas gigantescas", "dentro e fora do supermercado", "com outras centenas de pessoas", "perdendo-se muitas horas", por um "mero desconto de 50%", restando a final um supermercado com "repositórios de produtos vazios", cenários portanto de um país típico do "terceiro mundo". Tudo isto vi e/ou ouvi, e é razoável perguntar-se: é falta de dignidade estar-se numa fila horas a fio com outras pessoas e pagar nos termos legais? E no Natal, a pagar sem desconto, é mais digno? E se fosse para inscrever um filho num colégio privado, é diferente?! Os media foram terrivelmente cínicos, mas pergunto se é mais digno estar horas a fio para participar num “Ídolos”ou fazer de figurante numa telenovela ou num evento publicitário, eventos que os media tanto tentam enobrecer e valorizar?!

A falta de dignidade parece-me ser mais falta de realismo de análise de como o mundo e as preferências individuais mudam, tanto quanto a imutabilidade das necessidades primárias do ser humano, sendo a primeira a de sobreviver. Admito que nem todos tiveram escolhas racionalizadas, mas o que sobressalta desta história é também a falta de liberdade de escolha e residualmente uma certa pobreza de espírito. Mas com sacrifícios notórios aplicados a milhares de pessoas só a falta de escolha parece ser a razão mais plausível e ascendente. Se se concorda ou não, se se julga que todos deveriam lá estar ou faltar, parece-me aqui irrelevante. Facto é que, objectiva e serenamente, esta "moral" ou realidade não é nova, e veio reforçar a fragilidade dos nossos dias, demonstrar o quão rápido e móvel podem ser os comportamentos das classes médias e baixas e a tomada de consciência individual e colectiva, mediática e política, dos cidadãos deste país que vivem com muitas dificuldades diárias e sem discursos de esperança sobre o seu futuro, e que mesmo a trabalhar nesse dia ou na madrugada do dia seguinte não puderam dar-se ao luxo de deixar de estar nas "cheias" de um supermercado no primeiro dia de maio. Parece-me que nesta história a sujeição ao sacrifício de um desconto de 50% é tanto um privilégio dos mais pobres, quanto a declaração de falta de dignidade é uma prerrogativa dos mais abastados. E se alguém pensa que está livre de estar numa fila à 1.º Pingo de Maio, pense outra vez e agora, enquanto só tem efeito moral!

Autoria e outros dados (tags, etc)


"Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, modas, maneiras, pilhérias, tudo vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssimo, com os direitos de Alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas..."
Eça de Queiroz, in Os Maias




Comentários recentes

  • Swonkie

    Olá :) Enviamos um convite para o teu email. Caso ...

  • silva

    Como é possivel não cair! Se a corrupção que segun...

  • silva

    Como é possivel não cair! Se a corrupção que segun...

  • batidasfotograficas

    Para terem mais tempo para a família! Seria bom qu...

  • Tiago Sunzu

    Obrigado pelo seu comentário construtivo e com tan...




Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D






+18314 até 8.8.11 no Blogspot

subscrever feeds