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Banalidades sobre o tema do momento

por Filipa Correia Pinto, em 19.05.13

Se a Divina Providência, ou a natureza, tivessem como pressuposto essencial da formação de um ser humano saudável que este crescesse junto da respectiva Mãe e do respectivo Pai, ambos progenitores dedicados e em plena comunhão de vida, decerto teria impedido o divórcio, as mortes prematuras, as doenças, a violência, a pedofilia,  e todas as demais tragédias, mais ou menos graves, que limitam o direito de as crianças crescerem amadas pelos seus pais biológicos.

Posta esta primeira banalidade, é para mim evidente que, na falta de condições ideais, o importante é que as crianças cresçam com amor. Se não de todos, pelo menos de alguns; se não de mãe, pai, irmão, avós e irmãos, pelos menos de alguns deles; se não de algum desses, pelo menos de alguém que as ame.

 

Isto leva-me à segunda banalidade: a lei que vigora actualmente permite que uma só pessoa (um homem ou uma mulher), independentemente da sua orientação sexual,  adopte uma criança. O que, por sinal, me faz aterrar numa terceira evidência, porventura menos banal: o nosso actual ordenamento jurídico consagrou o direito de os homossexuais contraírem casamento, vedando-lhes expressamente a possibilidade de, nessas condições, adoptarem uma criança. Numa palavra, um gay, ou uma lésbica, pode adoptar, desde que não se case.

 

Qualquer ser dotado de uma meridiana capacidade de fazer raciocínios lógicos percebe, independentemente das suas convicções pessoais sobre o tema, a imbecilidade deste regime. Ou bem que a orientação sexual de um adulto é uma limitação inultrapassável à sua capacidade de adoptar, ou bem que o seu estado civil é um requisito. Nada disso acontece: ser casado é factor preferencial, desde que se trate de um casamento heterossexual, estável e com histórico, contanto, claro, que não se trate de um casamento homossexual, circunstância em que a adopção se encontra vedada. Já aos solteiros, a lei parece trata-los com igualdade: é irrelevante se são depravados, afectivamente estáveis, se gostam de ménages a trois, de cães ou das sombras de Grey. São solteiros e a lei reconhece-lhes por isso uma especial aptidão para a parentalidade. 

 

É chegada aqui que, depois de ver tanta histeria e hipocrisia, não percebo o que se passou na passada sexta feira no nosso cada vez mais surpreendente Parlamento.  O mesmo Parlamento que proibiu os casais homossexuais casados de adoptar, parece ontem ter decidido que os mesmos casais homossexuais podem adoptar, desde que devagarinho e um de cada vez. Esta banalidade, que decorre diretamente do texto do projecto, a mim, deixa-me estupefacta.

 

A discussão do tema da adopção por pessoas do mesmo sexo é apaixonante. Lamentavelmente, esta proposta – que, como se vê, pretende fazer entrar pela janela o que há pouco tempo proibiu que entrasse pela porta – não o tratou verdadeiramente, nem os participantes (proponentes, votantes, faltosos, abstencionistas e demais artistas de circo) da fantochada a que os eleitores assistiram quiseram ter alguma discussão.

Quiseram fazer aquilo que vêm fazendo no exercício do seu poder legislativo: gozar com a cara do povo que os elegeu, de forma absolutamente despudorada.

 

Não tenho certezas sobre o tema e creio mesmo que ninguém com bom senso as pode ter: é evidente que a realidade das crianças adoptaveis está muito distante da fotografia perfeita da família tradicional. Insistir na ideia de que elas têm direito a essa família ultrapassa os limites da lógica e entra no domínio da estupidez.  O argumento de que as crianças precisam de uma Mãe e de um Pai para serem felizes é, portanto, do meu modesto ponto de vista, um argumento muito estúpido para começar a discussão sobre a adopção por homossexuais. Admitir que ao cuidado do Estado essas crianças ficam melhores do que à guarda de quem as ame, apenas por causa de quem se deita na sua cama,  é de uma insensibilidade tão gritante que não merece contra argumentação. Admito sem esforço que um casal heterossexual estável e emocionalmente equilibrado é melhor candidato adoptante do que um casal homossexual, mas percebo mal o argumento na economia desta discussão quando constato que permanecem institucionalizadas milhares de crianças que ninguém adopta.

 

Leio por aí que este projecto visa salvaguardar o superior interesse da criança naqueles casos em que o pai (biológico ou adoptivo) homossexual casado ou unido de facto lhe falte, permitindo-se que o companheiro co-adopte e mantenha, assim, após o desaparecimento do pai, o vinculoafectivo com a criança. Ainda que o propósito fosse louvável, não é ele que fundamenta o projeto. Basta lê-lo, e já agora convém começar pela respectiva exposição de motivos: estão lá, e por uma ordem esclarecedora, os princípios que o norteiam. Do que se trata é, apenas, de estender os direitos de parentalidade aos homossexuais. E o que realmente me encanita é esta mania de os deputados me fazerem de parva. Porque se eles realmente estivessem preocupados com o propósito que enunciam, saberiam enunciar tal hipótese e redigir a respectiva consequência. Saberiam, aliás, que o companheiro “remanescente”, naquele caso em que o pai venha a falecer, já podia, no regime actual, ser adoptante da criança, e naturalmente com preferência sobre outros “interessados” caso efetivamente pre exista o vinculo afectivo.  Saberiam que o “direito” à co-adopção não pode nascer do vinculo afectivo ao pai (biológico ou adoptivo) da criança. Saberiam sobretudo que, em matéria de adopção, os adultos não têm direitos sobre os quais valha a pena legislar.

 

Posto isto, uma ultima banalidade: a direita prefere manter-se hipócrita, cega e surda, imune ao mundo ao sua volta. Perde repetidamente os seus combates, quase sempre por falta de inteligência. No caso presente, a coisa inspira piedade: só 24 horas depois é que aquelas almas brilhantes perceberam que estavam a revogar  o art. 3º da Lei n.º 9/2010, pelo qual tanto se bateram.

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O virus que era preciso espalhar

por Filipa Correia Pinto, em 16.03.13

Olha, Joana , só hoje vi o teu vídeo. Fiquei mesmo impressionada. Temos imensas coisas em comum.

Também eu sou jovem, como tu, nascida nesse ano em que a geração dos nossos pais aprovou a Constituição. Também eu trabalho há quase 15 anos a recibos verdes. Actualmente, entrego ao Estado quase metade do que ganho, sem acesso a subsidio de espécie nenhuma. Curioso, como tu, também eu exerço , por delegação, funções de soberania previstas na Constituição:  colaboro na administração da Justiça, quase sempre contra este regime de voracidade do Estado que, sem termos sido tidas ou achadas, se instituiu neste nosso Portugal.

Mas sabes, nisso somos diferentes. Tu és artista. Eu sou Advogada. Precária. Mas como tu, nunca tive um contrato de trabalho. Trabalho muitas vezes mais de 12 horas por dia, à noite, ao fim de semana, com horários desregulados. Tenho de estar sempre disponível, actualizada, bem arranjada, simpática. É duro.

Como contigo, também a minha rede é a minha família. Todos, cada um deles - pais, tios, avós – trabalhou muitíssimo para me proporcionar a escola, a educação, a saúde, os livros e a cultura que formaram a minha personalidade e o meu profissionalismo. Também eles são vitimas do estado a que chegamos. Reformados ou compelidos a trabalhar numa idade em que deviam já descansar, todos eles se sentem defraudados.

Mas sabes, Joana, não somos iguais em tudo.

Ao contrário de ti, eu quis ser Mãe e fui Mãe. Precária, muito mais do que hoje. Da primeira vez só tinha 25 anos. Ainda nem recibos mensais passava. Nunca tive subsídios. Ou abono de família. Ou protecção na doença. Ou Plano B se ficar sem trabalho. Mas gostei tanto que repeti. Por duas vezes. Hoje já são 3 e não sei se não chegará o quarto em breve.

Sabes, Joana, a maternidade dá sentido à vida. Dá sentido às lições que em casa te ensinaram. Essa da teia, por exemplo. Ensina-te a procurar soluções, a reinventares-te, em vez de passares o tempo a lamentares-te. Ensina-te que que tens de te superar, que tens de rejeitar a ideia de que tudo te é devido por causa do esforço da tua família, ensina-te a meter as mãos na massa e tomares as rédeas da tua vida.

Como tu, Joana, eu também não tenho uma solução que resolva o problema de Portugal. Muito menos do mundo. E como tu, Joana, eu sei que eu também sou uma privilegiada. Só que não me atrevo aos teus lamentos.

E, ao contrário de ti, Joana, eu sei bem qual é o meu caminho: entregar um futuro, ainda que não tão risonho como aquele que até há pouco tu gozaste, aos meus filhos.

Experimenta fazeres-te ao caminho. Tens a garra e a determinação que fazem falta. Ouviste a lição. É  com esforço e sacrifício, não é com lamúrias. Faz a tua parte. Vais ver que tudo te vai parecer menos cinzento. É que as soluções que agora te faltam - sim, porque essa merda de mandar lixar os gajos que pagam a reforma dos teus pais, e a dívida que todos temos de suportar, é cool mas não resolve o teu problema – se vão transformar num problema sério, que vais ser capaz de resolver: vais ter de dar um futuro aos teus filhos. Se te concentrares nisso, verás que ele aparece. Na verdade, esse futuro depende de pessoas como tu.   

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E uma lei que limite o disparate, não?

por Filipa Correia Pinto, em 24.01.13

Há com certeza (ainda que eu pessoalmente as não possa sempre acompanhar) muitas razões intelectualmente sérias para não apoiar Menezes ou Seara ou Moita Flores. Agora vir dizer que a lei da limitação dos mandatos se aplica a outros órgão que não àqueles onde o mandato vem sendo exercido e pretender fazer disso uma questão de princípio que não pode ser ultrapassada por calculismo eleitoral é, no mínimo, hipócrita.
A mim, que não tenho os créditos de outros afamados pseudo juristas, parece-me que o calculismo está em querer pôr na lei o que tecnicamente não está lá, nunca esteve na ideia do legislador, não consta das discussões preparatórias e não tem sequer nenhum fundamento válido. 
A lei pretende introduzir uma renovação política forçada, que acabe com interesses instalados e clientelas cristalizadas. Obviamente, essa renovação tem em vista a jurisdição e o órgão em que a esfera de influência se construiu.
Compreendo que certas candidaturas estraguem os interesses pessoais de alguns. Aceito até que elas não possam ser apoiadas pelo meu partido por ofenderem o seu código genético.
O que já aceito menos - e me parece incompreensível para qualquer eleitor normal - é que essas candidaturas sejam precisamente as protagonizadas por aqueles que, até aqui, governaram em coligação com o CDS, sem que nunca se tenha ouvido, da parte dos seus dirigentes, uma única palavra que criticasse a sua obra, a sua política ou a sua estratégia, e sem que nunca se tenha visto um gesto público ou privado - unzinho apenas - que tirasse consequências dessa agora alegada divergência.
Princípios? Calculismo eleitoral? Por mim, estamos conversados. O resto, serão os militantes a decidir, se os estatutos do CDS ainda servirem para alguma coisa (do que naturalmente duvido) e, em ultima linha, os eleitores. E estes, suspeito que vão dar baile.

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Comediante de lupanar

por Filipa Correia Pinto, em 05.04.12
Não há espirito pascal que resista a tamanha deselegância e grosseria.
Por mim, over and out.
Está na hora de os deixar a falar sozinhos.

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Começa a faltar decência

por Filipa Correia Pinto, em 04.04.12
Ha muitas maneira de estar na política, como há muitas maneiras de estar na vida. Algumas maneiras são, num caso e noutro, em absolutamente condenáveis, pela razão simples de que violam de forma flagrante os valores universais em que assenta a vida comunitária, e põem em perigo a própria humanidade.
Outras - todas as que sao diferentes da nossa em particular - sendo de rejeitar, só podem ser censuradas à luz de uma singular escala de valores, que está sempre longe de poder ser universal.
Ora, o programa do CDS, quando se refere, num capitulo dedicado à ética na política, ao "relativismo  moral que banaliza o mal" não está, seguramente, a impor a cada homem concreto um modelo axiológico completo e rigoroso cuja violação conduza inexoravelmente à condenação eterna ou à instituiçao de uns caos mergulhado nas trevas.
Obviamente, o que lá se defende, como qualquer intérprete honesto teria a decência de concluir, é que o exercício da actividade política não pode vergar-se ao facilitismo nem fundar-se no populismo demagógico. A política tem de estar ao serviço de causas, do interesse publico e tem de fundar-se em valores, devendo os seus agentes obedecer a rigorosas regras de conduta que traduzam fielmente a confiança neles depositada.
A sugestão trazida pelo autor deste texto (http://cachimbodemagritte.com/3487973.html), de que pessoas como eu sofrem de um défice de moralidade e são, portanto, responsáveis pelos males do mundo, tem tanto de estúpida no contexto do combate político que está em curso como de ultrajante.
Sobre o ultraje, em meu nome e provavelmente em nome de todo um partido representado pelas dezenas de conselheiros nacionais que, democraticamente, recusaram a proposta que o autor do texto em questão parece subscrever, com franqueza, só me apetece dizer-lhe o que o meu "sobrante carácter" nao permite verbalizar.
Sobre a estupidez da sugestão, há duas coisas que importa clarificar. A primeira é a de que enquanto este combate se travar no plano da moralidade, nunca o signatário do insulto logrará obter qualquer vitoria. Ponto. É pena que nem ele nem os proponentes armados em reservas morais do CDS tenham compreendido isso.
A segunda é que convém lembrar que, decerto por inabilidade política, o que os autores da proposta submeteram à votação foi uma obrigação absoluta de os deputados do partido votarem de acordo com as particulares convicções morais dos seus signatários  toda e qualquer questao que venha a ser submetida ao parlamento. Ao contrario da carta que motivou a discussão, e ao contrario do que por ai se tem feito crer, na proposta votada nao se procurou saber se o CDS ainda era contra o aborto livre, se ainda defendia a vida, se ainda respeitava a dignidade humana, enfim, se ainda respeitava o seu programa ou se já se podia fundir no Bloco  de Esquerda. Sobre a moralidade e a decência de uma propsta assim, cuja aceitação implicaria ou a violação das consciências de vários deputados ou a renúncia aos seus mandatos, estamos conversados. 
Ah, é verdade, quando eu achar que a catequese me esta a fazer falta e algum destes evangelistas me puder dispensar um pouco do seu tempo,  a igreja de Cristo Rei vai parecer-me melhor local do que o largo do Caldas.

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Liberdade e diversidade

por Filipa Correia Pinto, em 01.04.12
Não sou, actualmente, conselheira nacional do CDS. Se fosse, teria votado contra qualquer proposta que imponha o pensamento unico ou que institua a superioridade moral de uns sobre os outros.
Hoje, é um lugar comum dizer-se que a riqueza do CDS provém essencialmente da multiplicidade de sensibilidades que alberga. É estranho, no entanto, pelo menos para mim, que isso seja permanentemente posto em causa.
Mas vamos por partes, que não gosto de equívocos.
Sou, por defeito e por feitio, contra a disciplina de voto dos deputados como regra. No meu entendimento, os deputados respondem apenas aos eleitores e à sua consciência, pelo que é em consciência que devem votar em cada momento. Eleitos em listas partidárias, o que é natural é que as suas consciências, na maoiria dos casos, se encontre alinhada. E que coincida com a consciencia geral dos eleitores desses partidos e, dependendo do respectivo detalhe, com a integralidade os seus programas.
Cabe portanto aos partidos, na sua liberdade e de acordo com os seus critérios, escolher os deputados que fazem eleger. No CDS, essa escolha é votada e aprovada pelo órgão mais importante entre congressos, o que, da minha perspectiva, significa que o grupo parlamentar do CDS é o grupo de deputados escolhido por todo o partido.
Em concreto, não percebo como uma franja do partido se indigna agora com a concreta direcção de voto de alguns deputados. Não que esses deputados (ou quaisquer outros) precisem de advogada de defesa, mas a verdade é que as suas posições sobre determinadas matérias sempre foram afirmadas de forma coerente e amplamente publica. E lamento muito, mas ou falamos de um programa diferente ou temos uma forma radicalmente de interpretar o pensamento desses deputados.
É que achar que uma criança abandonada e sozinha não pode ver o seu direito fundamental a ser amada mitigado por um preconceito sobre orientação sexual, não é o mesmo que confundir maternidade com partenidade nem o mesmo que ser incondicionalmente a favor dos direitos LGBT. É apenas uma tentativa - entre várias outras possíveis - de conciliar a defesa da liberdade com o superior interesse da criança. E achar que uma mulher grávida deve ter o poder de escolher, em determinadas condições, se vai ou não ter o seu filho, não é o mesmo que ser contra o direito à vida. É uma escolha, de entre as várias possíveis, sobre a forma mais adequada de equilibrar os vários direitos fundamentais em causa. Do mesmo modo, reconhecer a alguém a autodeterminação de poder pôr um fim à sua própria vida é ainda uma forma válida (seguramente não a uníca) de defesa da inalienável dignidade humana.
Não há espaço para moralismos nesta discussão. Esta discussão é uma discussão acerca da liberdade. Acima de tudo, da liberadade de cada um defender as suas convicções. Compreendo que certas convicções possam ofender outras. É legítimo e até saudável. Mas no caso concreto, não creio que possa haver um único militante do CDS que se possa queixar de ter sido enganado quando escolheu o seu grupo parlamentar. Pode, no limite, defender-se que o CDS não pode albergar determinadas convicções. Pode até defender-se que os candidatos a deputados devem ser obrigados a subscrever uma carta de obrigações imposta pelo partido, caso queiram ser eleitos através dele. Não creio que isso seja conforme à matriz essencial do CDS, mas posso ser eu que estou a ver mal e, consequentemente, estarei a mais.
O que, com toda a certeza não pode fazer-se, é mudar as regras do jogo a meio e estabelecer agora, depois da escolha dos militantes e depois da escolha dos eleitores, as regras a que os deputados ficam sujeitos para poderem exercer os seus mandatos.
Mutatis mutandis, tudo isto vale para o voto contra o aumento de impostos na Madeira ou, mais especialmente, para o voto contra a reforma laboral. Os deputados em questão votaram de acordo com as suas conviccões e ao abrigo do que consideraram ser um imperativo de consciência.
Em democracia e em liberdade, só há uma consequência politica a tirar disso: nenhuma delas é palavra oca.
Já agora, os mais empolgados na discussão acerca das disciplinas de voto fariam um enorme favor às suas estatrégias se se lembrassem que esta coisa dos imperativos de consciencia não é hierarquizavel. Os meus são tão respeitáveis como os daqueles que discordarão destas linhas.

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TEMOS PENA

por Filipa Correia Pinto, em 05.01.12

Temos pena, mas nesta discussão acerca da Jerónimo Martins, há que defender, e de forma intransigente, que as empresas, ao contrário dos governantes e dos titulares dos órgãos de soberania, só têm os deveres emergentes da lei. No mais, têm de batalhar - e estou em condições de asseverar que têm de batalhar muito, em especial contra a Administração fiscal - para fazer valer os seus direitos.

Nesta história, neste modelo e neste mercado, não é das empresas que se deve esperar moralismos, patriotismos ou escolhas éticas. Temos mesmo pena, mas isso, é justamente o que se espera dos politicos. As empresas vivem da maximização do lucro, o que lhes assegura a viabilidade dos respectivos postos de trabalho, o que, por sua vez, garante ao Estado a possibilidade de sorver impostos com uma sofreguidão tão persistente que nenhum heroínomano conseguiria manter sem custos por tanto tempo... A ideia de que as empresas, em matéria fiscal, fazem escolhas porventura legais mas "condenáveis", tem tanto de estúpida como de ignorante.

Nesta inenarrável escalada de disparates, ninguém estranha que eu ache que esses mesmos - a quem foi confiada a missão de, em nome de todos, fazer escolhas éticas, morais, imaculadas e a salvo de qualquer censura - que agora se indignam, se de desdizem, se confundem e insistem em achar que somos todos parvos, teriam prestado um enorme serviço à pátria se acaso se tivessem calado.

 

P.S. Por falar em competitividade fiscal, o que terá acontecido às famosas auditorias independetentes ao sistema das penhoras do fisco?

 

(Editado em 05/01/12)

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Caixinhas de Pandora que era melhor não abrir

por Filipa Correia Pinto, em 27.10.11

O clima de suspeição e de mesquinhez que paira sobre a actividade política em geral está a ficar irrespirável. É verdade que nestes tempos de sacrificios há que rever os privilégios injustificados, mas esta insana caça às bruxas não dignifica ninguém.

Não era pior que os moralistas bem falantes que para aí andam a pregar contra as viagens, as pensões, os direitos adquiridos e os facebooks se lembrassem que não há democracia se não se puder ter um minimo de confiança nas instituições, nos órgãos de soberania e nos seus titulares.  E que a inveja do que está no prato do lado está longe de nos poder matar a fome. E que Portugal ainda é um Estado, com interesses para gerir e com empresas para governar. Não pode ser desonrado só por  causa da irresponsabilidade de alguns.

Bom senso, por favor, ou vamos acabar a discutir a natureza do direito de propriedade.

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A INIQUIDADE DESTE ORÇAMENTO

por Filipa Correia Pinto, em 21.10.11

Acho piada às virgens púdicas do regime - muito em especial a estas - que se exaltam, se indignam e se insurgem contra este Orçamento. Até o Professor Cavaco, veja-se bem, que tanto fez pelo controlo do défice em Portugal e que tanto progresso e desenvolvimento trouxe ao país, está indignado.

É verdade que o orçamento é iníquo. E é verdade que não é justo na repartição dos sacrifícios. Mas qual é a novidade? Há anos que o regime padece de falta de equidade e há anos que os sacrifícios e os benefícios são obscenamente repartidos. O Orçamento que temos é o Orçamento do regime que escolhemos.

E sobre este particular, deixem-me dizer uma coisa: pessoalmente, nunca aprovei o modelo de regime em que se subsidia para não produzir, em que se gasta muito acima do que se produz e em que a omnipresnete existência do Estado na economia vive permanentemente sob a suspeição da corrupção, da negociata e onde nunca a defesa do interesse público é transparente ou apreensível. Portanto, eu nunca aprovei o regime e, não obstante, suporto, como os outros cidadãos que livremente o escolheram e o foram engordando, os sacrifícios que ele impõe. Não fora o meu avançado espírito democrático, e só isso era já iniquidade suficiente para justificar a minha particular indignação.

Não sei se este Orçamento era o único possível. Não conheço os dossiers e, felizmente, não tenho a responsabilidade de governar o país (o que no presente momento, significa desatolar Portugal do monte de merda em que os portugueses o enfiaram). Não tendo essa responsabilidade, restam-me os palpites de bancada - cujo direito a nossa democrática constituição me garante, ainda que isso irrite o Senhor Ministro das Finanças. O meu palpite diz-me que, efectivamente, o Governo escolheu o caminho mais fácil, porventura o único que teve tempo para trilhar tendo tomado posse há tão pouco tempo. É que este Orçamento não sabe a pouco por "cortar muito". Sabe a pouco porque verdadeiramente não revela um plano para a economia portuguesa nem exibe uma estratégia de crescimento. Bem sei que há contas para pagar e que Portugal precisa imperiosamente de cumprir os seus compromissos. Mas basta percorrer os últimos programas eleitorais dos partidos da maioria para ver a quantidade de medidas de apoio às PMEs, de dinamização das exportações, de atracção de investimento estrangeiro, de estímulo à poupança, de redução de consumos intermédios do Estado que este Orçamento deixou na gaveta.    

Os cortes, só por si, especialmente quando acompanhados do brutal aumento da pressão fiscal até níveis verdadeiramente incomportáveis para quem vive do seu trabalho, nada resolvem, a não ser provocar uma drástica diminuição do consumo e, por essa via, uma atenuação do desequilibro na balança comercial. Mas isso parece-me claramente insuficiente face ao momento que o país atravessa.

Seja como for, é indiscutivel que os cortes (estes ou quaisquer outros por que o Governo optasse) são o resultado de escolhas políticas do passado absolutamente iníquas, escolhas que nos trouxeram à bancarrota e que alimentaram um Estado que tem tantos trabalhadores a gravitar na sua dependência como quase todo o sector privado; que se decidiram pela construção de estradas que ninguém utiliza; que permitiram o pagamento de prémios de gestão aburdos a gestores ruinosos que nunca dispensaram as suas empresas das sucessivas transferências do Orçamento de Estado; que, numa palavra, foram sempre ditadas ou pelo propósito de servir directamente os seus protagonistas ou pelo propósito, não menos odioso, de iludir o eleitorado e lhes garantir a permanência no poder.

Lamentavelmente, nem isto é só de hoje, nem é culpa de um só partido. E é bom que o CDS paute a sua presença neste Governo por esta verdade, ou desperdiçará para sempre a oprtunidade que os portugueses lhe deram, convertendo-se num partido do regime.

Deste regime podre. Em que apesar de mais de metade do produto do trabalho de cidadãos como eu ser entregue ao Estado, em que apesar de a justiça ser paga, de a saúde ter taxas, de a edução ter propinas e mensalidades para quem quer os filhos na escola durante mais de meio dia,  continua a não haver dinheiro para prestar esses serviços que nos habituámos a ver como "essenciais". Foi aqui que o regime nos trouxe: pagamos como ricos e somos servidos como pobres.

É, de facto, de uma grande iniquidade. Mas só nos podemos queixar de nós próprios e das escolhas que fizemos. Uns mais do que outros, é verdade. E esses, por uma questão de decência e de moralidade, bem que podiam ir exibir a sua indignação para o caraças.

 

PS: Agradeço, neste post de estreia, o convite do João e cumprimento os meus colegas de blogue. Limitações de tempo impedirão uma grande assiduidade, mas andarei por aqui sempre que o facebook for pequeno para comportar a minha indignação...        

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"Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, modas, maneiras, pilhérias, tudo vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssimo, com os direitos de Alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas..."
Eça de Queiroz, in Os Maias




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