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Antero e o Google

por Nuno Santos Silva, em 18.04.12

O Google tem destas coisas. O "contemplado" com o doodle de hoje é 170.º aniversário de Antero de Quental, um poeta cuja obra conheço pouco, mas de que o pouco que conheço gosto muito. 

Aqui fica o meu poema preferido de Antero de Quental:

 

Divina Comédia

 

Erguendo os braços para o céu distante 
E apostrofando os deuses invisíveis, 
Os homens clamam: — «Deuses impassíveis, 
A quem serve o destino triunfante, 

Porque é que nos criastes?! Incessante 
Corre o tempo e só gera, inestinguíveis, 
Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis, 
N'um turbilhão cruel e delirante... 

Pois não era melhor na paz clemente 
Do nada e do que ainda não existe, 
Ter ficado a dormir eternamente? 

Porque é que para a dor nos evocastes?» 
Mas os deuses, com voz inda mais triste, 
Dizem: — «Homens! por que é que nos criastes?» 

Antero de Quental, in "Sonetos"

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A primeira morte de Günter Grass

por Margarida Bentes Penedo, em 17.04.12

 

 

«Temos a Coreia do Norte e o seu tirano autista, que conta com um arsenal nuclear amplamente operativo.

 

Temos o Paquistão, do qual ninguém sabe nem o número de ogivas que possui, nem a exacta localização destas, nem que garantias temos de que, quando menos esperarmos, não acabem nas mãos dos grupos ligados à Al Qaeda.

 

Temos a Rússia de Putin que, em duas guerras, conseguiu a façanha de exterminar a quarta parte da população chechena.

 

Temos o carniceiro de Damasco, que já vai pelos dez mil mortos, cuja alienação criminal ameaça a paz na região.

 

Temos o Irão, claro está, cujos dirigentes fizeram saber que, quando dispuserem delas, as suas armas nucleares servirão para atacar os vizinhos.

 

Em resumo: vivemos num planeta em que abundam os Estados oficialmente pirómanos que apontam abertamente aos seus civis e aos povos circundantes, e ameaçam o mundo com conflagrações ou desastres sem precedentes nas últimas décadas.

 

E eis que a um escritor europeu, um dos maiores e mais eminentes, uma vez que se trata do prémio Nobel da Literatura Günter Grass, não lhe ocorre nada melhor do que publicar um "poema" em que explica que a única ameaça séria que pesa sobre as nossas cabeças procede de um país minúsculo, um dos mais pequenos e vulneráveis do mundo, que, diga-se de passagem, também é uma democracia: o Estado de Israel.

 

Esta declaração cobriu de satisfação os fanáticos que governam em Teerão, que, através do seu ministro da Cultura, Javad Shamaghdari, se apressaram a aplaudir a "humanidade" e o "espírito de responsabilidade" do autor de O tambor de lata.

 

Também foi objecto dos comentário extasiados, na Alemanha e no resto do mundo, de todos os cretinos pavlovizados que confundem a recusa do politicamente correcto com o direito a dizer o que lhes vem à cabeça libertando, de passagem, os fedores do mais pestilento dos pensamentos.

 

Finalmente, deu lugar ao habitual e fastidioso debate sobre o "mistério do grande escritor que, para mais, pode ser um cobarde ou um canalha" (Céline, Aragon) ou, o que é pior, sobre a "indignidade moral, ou a mentira, que nunca devem ser argumentos literários" (em cuja abjecção toda uma pletora de "pseudocélines" e "aragões de trazer por casa" se poderíam regalar).

 

Mas, ao observador com um pouco de bom senso, este caso inspirará sobretudo três simples anotações.

 

A decadência característica, às vezes, da senilidade. Esse momento terrível, do qual nem os mais gloriosos estão isentos, em que uma espécie de anosognosia intelectual faz com que todos os diques que habitualmente continham os transbordamentos da ignomínia se desmoronem. "Adeus, ancião, e pensa em mim se me leste" (Lautreamont, Os cantos de Maldoror, Canto primeiro).

 

O passado do próprio Grass. A revelação que fez há seis anos quando contou que, aos dezassete anos, se alistou numa unidade das Waffen SS. Como não pensar nela hoje? Como não relacionar as duas sequências? Por acaso não fica patente o vínculo entre isto e aquilo, entre o burgrave social-democrata que confessava ter dado os seus primeiros passos no nazismo e o miserável que agora declara, como qualquer nostálgico de um fascismo convertido em tabu, que está farto de guardar silêncio, que o que diz "deve" dizer-se, que os alemães já estão "suficientemente sobrecarregados" (não se percebe porquê) para se converterem, ainda para mais, em "cúmplices" dos "crimes" presentes e futuros de Israel?

 

E a Alemanha. A Europa e a Alemanha. A Alemanha e a Europa. Esse vento de mau agoiro que sopra sobre a Europa e vem encher as velas do que não se pode senão chamar "neo-antissemitismo". Já não é o antissemitismo racista. Nem cristão. Nem sequer anticristão. Nem anticapitalista, como no pricípio do séc. XX. Não. É um antissemitismo novo. Um antissemitismo que só tem possibilidades de voltar a fazer-se ouvir e, melhor, de ser expressado, se conseguir identificar o "ser judeu" com a identidade supostamente criminal do Estado de Israel, disposto a descarregar a sua ira contra o inocente Estado iraniano. É o que faz Günter Grass. E é o que faz deste caso um assunto terrivelmente significativo.

 

Ainda me lembro de Günter Grass em Berlin, em 1983, no aniversário de Willy Brandt.

 

Ainda o oiço, primeiro na tribuna, depois sentado a uma mesa, entre uma pequena corte de admiradores, com o cabelo tão denso como o verbo, uns óculos de armação ovalada que lhe davam um certo ar de Bertoldt Brecht e o rosto bochechudo tremendo de uma emoção fingida enquanto exortava os seus camaradas a olhar de frente o seu famoso "passado que não passa".

 

E ei-lo aqui, trinta anos depois, na mesma situação que esses homens com a memória esburacada, fascistas sem o saberem, acossados sem o ter querido, a quem, naquela noite, ele convidava a assumir os seus inconfessáveis pensamentos ocultos: postura e impostura; estátua de areia e comédia; o Comendador era um Tartufo; o professor de moral, a encarnação da imoralidade que combatia; Günter Grass, esse peixe gordo das letras, esse robalo congelado por sessenta anos de pose e mentira, começou a descompor-se e isso é, literalmente, o que se chama um descalabro. Que tristeza.» *

 

(Bernard-Henri Lévy, publicado no jornal El Pais em 15 de Abril de 2012)

 

* Tradução minha, em reacção a este post da Rosário Coimbra

 

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A Puézia

por Margarida Bentes Penedo, em 21.03.12
 
 

 

 

 

Comemora-se hoje o "Dia Mundial da Puézia", data que me cumpre assinalar. Esta data traz-me uma grande satisfação, porque vejo a puézia por todo o lado. E a puézia tem muito que se lhe diga.

 

Temos, por exemplo, a puézia popular, que é aquela que costuma vir espetada nos manjericos e nas entrevistas que os sociólogos fazem às pessoas da província. As televisões contribuem com alegria e sentido patriótico para a divulgação deste tipo de puézia, indo recolhê-la aos lares de idosos: ainda há bem pouco tempo, vi uma senhora muito lavadinha, a quem as "auxiliares de prestação de cuidados de terceira idade" tratavam na primeira pessoa do plural (vamos então dizer os nossos versinhos agora, está bem dona Helena?) debitar umas linhas de grande acutilância. São abordados temas de cariz político e grande abrangência geo-estratégica. Os sujeitos são, regra geral, os ricos e os políticos. Costumam, depois de umas voltinhas engraçadas, ser enviados para a França, para a casa deles, para a prisão ou para a puta que os pariu.

 

Noutro patamar, temos a puézia das grandes operadoras de telecomunicações. Este segmento literário costuma ser encontrado nas caixas de email, nos cartões de Natal e no facebook. As frases são sempre afixadas em cima de fotografias com relvados, passarinhos, crianças, mar, túneis de luz, cascatas ou animais domésticos. Os autores não costumam ser mencionados, porque o divulgador já se apropriou daquelas mundividências floridas e o que interessa é a mensagem. Noutros casos, essas frases são assinadas por um leque muito vasto de autores que toda a gente respeita, entre os quais o Dalai Lama, o Confúcio, o Paulo Coelho e a Sophia. Os agentes mais trendy publicam obras centradas no sol, nas praias, e nas "férias na neve". As "férias na neve", só por si, merecem uma reflexão, que fica desde já prometida para quando me faltar assunto. Estes textos entopem o leitor com energias positivas, e as caixas de notificações com ameaças de esperança, que vão desde a fartura em dinheiro à abundância em paz, em saúde ou em pirafos, desde que o receptor se comprometa a partilhar aquilo com uma quantidade bíblica de inocentes.

 

Qualquer uma das versões anteriores se encontra dentro das áreas de expressão artística da minha predilecção. Mas aquela que mais me intriga e, por isso mesmo, mais me fascina, é a puézia erudita. Esta costuma ser divulgada em programas específicos na RTP 2. Por vezes, também agarramos alguns pedaços em entrevistas publicadas nos cadernos de fim de semana dos jornais de grande tiragem. São as chamadas "reportagens de fundo" e chegam-nos através da secção de "cultura".

 

Gosto tanto de "cultura" como gosto de "puézia", principalmente desde que me tenho dedicado a investigá-la e já consegui desvendar alguns segredos. Há várias categorias, bem entendido, e algumas são mais apreciadas do que as outras. Há quem rime e quem não rime, eu prefiro quando rima: sempre temos um trabalhinho bem acabado.

 

Deve ser escura, esta puézia. Não interessa a ninguém uma historieta de sucesso. Para isso temos as conferências sobre "Empreendedorismo, Criatividade e Inovação". As personagens devem ser porcas, desgraçadas, e urbanas. Convém uma luz antiquada, para conferir à coisa o carimbo de qualidade de uma erudição formada na história. E um elemento de modernidade, mas não muito exagerado: uma referência ao cinema chega perfeitamente.

 

Não se dispensam os palavrões: puéta que é puéta projecta o que vê do mundo em todas as suas manifestações, não circunscreve a linguagem a exigências de chazinhos finos. As palavras devem ser "rigorosas" e também "acutilantes". Algumas podem ser inteligíveis.

 

Depois precisamos de um enredo. Imaginemos um idiota deprimido, sentado num café, a emborrachar-se com uma porcaria qualquer. Olha para a empregada de mesa e confunde-a com uma actriz (convém ser estrangeira, mas não americana). Enche-se de entusiasmo (obrigatória uma referência às "pulsões sexuais", que são "identitárias"), avança em direcção a ela, e faz-lhe uma proposta indecente.

 

Por fim, falta seleccionar os sons (atentos que devemos estar à "musicalidade do puema") e distribuir os factores numa composição toda entrecruzada. O título deve ser uma parvoíce.

 

Segue um exercício, para provar que existe uma puitiza dentro deste carroceiro que vos escreve.

 

A possidónia

 

De tarde, miserável sobre um cálice de absinto,

Perturba-me a gordura de uma epopeia morta,

E atrás de uma vidraça, a cintura da Binoche;

 

Como uma ideia espessa, contenho uma comporta,

Num passo indispensável, seguro num jacinto,

E rogo à criatura que me faça, ali, um...

 

(Só é chato quando não se consegue encontrar uma rima.)

 

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"Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, modas, maneiras, pilhérias, tudo vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssimo, com os direitos de Alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas..."
Eça de Queiroz, in Os Maias




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