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Vídeo inédito de João Soares no Ministério da Cultura

por João Lopes Aleixo, em 07.04.16

O Senatus teve acesso a um vídeo inédito de uma recepção de João Soares a jornalistas no ministério da cultura.

 

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Tempted, Angela?

por Margarida Bentes Penedo, em 03.09.12

 

À conta da política de anonimato da revista "The Economist" (eles dizem que são "newspaper"), talvez nunca venha a saber quem lhes faz as capas. Tenho pena.

 

 

(Edição de 11 a 17 de Agosto de 2012)

 

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Uma agente cultural

por Margarida Bentes Penedo, em 26.06.12

 

 

A Raquel é jornalista e escritora. Em "jovem" (até perto dos 40 anos) deitava-se com "gajos" - na altura ainda não eram "fulanos", isso veio com a maturidade. Um deles tinha o apelido atraente, e escusou-se a repetir a farra porque não justificava outra viagem a Corroios. Uma guerra jurídica, com testes de ADN, obrigou "o gajo" a reconhecer a paternidade da Benedita, porque nem o nome da criança conseguiu enternecê-lo. Morreu de cancro, pouco tempo depois.

 

Ficou orfã a Benedita e atraente de apelido, uma vez que do pai não herdou mais nada. Conheceu uma variedade grande de sofás alheios, onde dormiu sempre que a mãe conseguiu que as amigas tomassem conta dela enquanto jantava, entrevistava, investigava e teorizava gajos. Ou fulanos. Ou directores. Ou candidatos. Ou especialistas. Ou editores, que a Raquel preparava-se para escrever um romance. Às vezes colegas de redacção, que a Raquel, nas suas palavras, não gostava de arranjar problemas laborais com a ralé. Um desses demorou-se lá por casa mais tempo do que era habitual, o suficiente para a Benedita ficar a saber que se chamava Vítor. E que tinha uma empresa de "conteúdos" ligados "à cultura" chamada Convicções Propícias, cheia de "contactos". E que a mãe odiava as camisolas que ele vestia, e a maneira como pronunciava os "erres", e nem sempre lhe atendia o telemóvel.

 

A Benedita viu como eles se cansavam a trabalhar, porque respiravam depressa e com muito barulho, e a mãe dobrava as pernas em posições muito esquisitas, e deixava as roupas espalhadas por cima das almofadas da sala e penduradas no poster do Paul Klee, e tinha as costas todas lambuzadas com tofu, e diziam coisas que a Benedita não percebia, acerca da "formação social" e da "instância do económico", e o Vítor tropeçava na ficus benjamina, e respondia com a "sobredeterminação da instância dominante" enquanto apertava um cachecol de tricot à volta dos pulsos da mãe, e a mãe gritava pelo "materialismo aleatório" e tinha uma pastinaca na mão, e no fim quem é que ia limpar aquilo tudo?

 

Mudaram de casa, foram viver para as Avenidas Novas, e a Raquel disse ao Vítor que "precisava de espaço". O Vítor deu o seu melhor. Entrou "em diálogo". Adoptou a Benedita, que se viu na contingência de passar a tratá-lo por "pai". Mas a Raquel não voltou atrás, e a Benedita passou a estar com o Vítor em fins de semana alternados, às quartas feiras para jantar no japonês, na véspera de Natal e durante metade do período de férias escolares.

 

Passados uma série de fulanos, a mãe começou a entrevistar o Zé Gonçalo, que a Benedita conhecia do Liceu Francês porque era pai de uma colecção de irmãs, as Fonseca Bastos, e costumava ir buscar as filhas às quartas feiras num carro escuro com a bandeira de Portugal no capot.

 

"Por insistência do Zé Gonçalo", a Raquel passou a andar muito ocupada a presidir a um "organismo da cultura". E a Benedita percebeu, passado um tempo, quando o governo caiu e o Zé Gonçalo já não era ministro nem andava lá por casa, que era dele que a mãe falava na televisão, dizendo que "a direita, ignorante e trauliteira", tinha "passado as últimas décadas a oferecer-nos gentinha deste género, como o dr. Fonseca Bastos" e que "toda a sua biografia" demonstrava que ele era "um carreirista praticamente analfabeto", e que não entendia "como é que as pessoas estavam tão surpreendidas".

 

Distraí-me uns anos e perdi o rasto à Benedita. Mas sei da Raquel que continua a participar em debates televisivos e a escrever (para os jornais; que se saiba, ainda não publicou nenhum romance). Sei também que, nas redes sociais, é considerada uma pessoa muito contundente.

 

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Nota: Pura ficção. Qualquer semelhança com nomes, factos ou não sei quê, é simples coincidência.

 

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O Malomil

por Margarida Bentes Penedo, em 16.06.12

 

 

Não sei se existe outro. Há blogs decentes (poucos), blogs assim-assim (alguns), blogs péssimos (mas, ainda assim, blogs) e lixo por todo o lado. E há um blog português que é tão bom que parece de outro planeta. Chama-se Malomil.

 

Não falo de mariquices; o Malomil é visualmente fracote e tecnicamente básico. E o nome é um bocado esquisito. Também não é um blog para consultar a correr e roubar umas frases. O António Araújo escreve comprido, profundo, com a simplicidade de quem sabe o que está a dizer, e com a ternura de quem gosta dos assuntos.

 

O António Araújo escreve críticas de livros que são um prazer, mesmo quando o livro é uma fraude. Como o post com que inaugurou o blog, em Dezembro de 2011, chamado "Irei cuspir-vos no túmulo", sobre o livro "Homossexuais no Estado Novo" (Sextante Editora, Lisboa, 2010), da jornalista São José Almeida.

 

Antes de ler esse post, só tinha visto escrever assim (sobre livros) no New York Review of Books onde, para cada edição, os autores são escolhidos entre os melhores especialistas do mundo. E são pagos como tal.

 

Há mais autores no Malomil, ainda não os conheço todos. Um deles assina "Herança Camarido" e publica fotografias curiosíssimas de cenas, pessoas, e papelada que vai encontrando. Como este menu para uma ceia de Natal, escrito à mão, em 1904. Ou esta Casa (que me parece palafitada) do Director da Exploração do Caminho de Ferro de Benguela, em Nova Lisboa. Ou a visita do imperador da Etiópia Hailé Selassié a Lisboa, em Julho de 1959. Ou o António Ferro, em 1922.

 

Todos os posts valem a pena. E quando digo que valem "a pena" é porque, às vezes, os posts são tão grandes e tão completos, contêm tantas fotografias e vídeos, que os ecrãs demoram a fazer "scroll". Então exigem alguma paciência.

 

"The problem we all live with" fala de uma história, de um quadro, e da obra de um pintor. Também do António Araújo, é um presente para uma miúda de 9 anos. Tenham paciência; não percam isto por razão nenhuma.

 

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Nota: Fotografia do João Pina, tirada daqui.

 

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As criadas

por Margarida Bentes Penedo, em 04.06.12

 

 

Eu espirrei e ela disse "Bom tempo; espirram os bodes", ao que a minha mãe respondeu "Ó Mariana, o que é que você disse?" E a Mariana explicou que era assim que se dizia na terra dela, "minha senhora, quando as pessoas espirram". "Então você está a chamar bode à menina, Mariana?" E a Mariana, que era de Barrancos, percebeu que aquilo não estava bem. Por isso dali para a frente, cada vez que eu espirrava no berço, a Mariana dizia "Bom tempo!" e a minha mãe, se a ouvia, fazia-lhe uns olhares, mas nunca a conseguiu ensinar que o que estava errado era a ideia em si mesma, de chamar bode a um bebé, e era indiferente que ela dissesse ou não a palavra "bode". A Mariana gostava de prever as condições meteorológicas, e ficava toda contente quando me ouvia espirrar porque, no entender dela, era prenúncio de "Bom tempo!" e não conseguia deixar de o dizer. Tenho quase a certeza que me lembro de a ver aproximar-se, ocultando-me a vista, ocupando todo o meu campo de visão, o bigode esparso de pêlos escuros muito erectos, para sussurrar "Bom tempo!" junto à minha orelha, porque a minha mãe estava ali mesmo ao pé.

 

Depois veio a Assunção, gorda e minhota, o bigode da Assunção era loiro. Nessa altura eu já andava, e a Assunção parecia-me altíssima, volumosa, os aventais da Assunção levavam muito pano, eu tinha ideia que podia dormir nos aventais da Assunção. Essa gostava de me passear, "os meninos não é para estarem fechados, balha-me Deus, por causa das vactérias minha senhora", e todos os dias me vestia de saia lavada, passada a ferro, impecável, e andávamos na rua, para cima e para baixo, eu pela mão da Assunção, até ela me considerar passeada.

 

Foi substituida pela Noémia que chegou num sábado, bonita e decidida, um olho verde e outro azul, fomos buscá-la à camioneta. Vinha de Valença do Minho e ficou muitos anos. Seis anos, para ser rigorosa. Naquela idade é uma vida inteira. Não a deixámos na camioneta. Deixámo-la num altar minhoto, onde já estava o António, porque casou "lá de casa" e os meus pais foram os padrinhos.

 

Era da Noémia a barriga que sossegava a minha irmã. A mais nova de todos, era crédula e gozada por nós, faziamos sempre a mesma graçola durante as refeições. Consistia em bater com uma mão debaixo da mesa, como quem bate a uma porta, e dizermos uns para os outros "olha, vem aí o lobo mau!". A cara dela ficava muito encarnada, os olhos largavam lágrimas e, com uns deditos abebezados, acenava à Noémia que já sabia o que fazer: aproximava a barriga. Ela afundava a cabeça na barriga da Noémia, nós levávamos uma descompostura, e a coisa ficava resolvida até à refeição seguinte.

 

A Noémia cantava o fado. E diz quem gostava de fado que ela cantava bem. Eu sempre detestei, mas sabia distinguir uma afinação e uma boa voz. A voz da Noémia era compacta, poderosa, saía de cima da tábua de passar a ferro e chegava à porta de entrada, ao quarto onde dormíamos a sesta, e ao fundo do terraço onde brincávamos. Os fados da Noémia foram a banda sonora de muita correria.

 

A Noémia tinha a quarta classe. À minha mãe pareceu-lhe pouco. Passou a vir almoçar a casa e, todos os dias da semana, depois da mesa levantada, seguiam-se as lições. Nós andávamos por ali até serem horas de voltar para a escola, e elas estendiam uma série de livros e cadernos em cima da toalha. A seguir liam, faziam contas, a minha mãe debitava, a Noémia perguntava, resolviam-se folhas de exercícios e despachou-se o ciclo preparatório. Não fazia parte do curriculum, mas havia uma coisa que a Noémia adorava fazer. E fazia como nenhum outro português: falar espanhol.

 

Num certo verão, a minha mãe indispôs-se com a minha avó porque ela insistia em que as criadas deviam ir fardadas para a praia. A minha mãe disse-lhe "as minhas vão de fato de banho, como toda a gente". Aquilo correu mal. Trombone o resto das férias e, no ano seguinte, os meus pais marcaram viagem por Espanha, com praia em Zarautz e passagem pelos Picos da Europa. Seis pessoas, contando os meus pais, nós os três, e a Noémia. Tudo enfiado num Fiat 850 Especial, mais a bagagem para um mês, a caminho do País Basco, ida e volta, com rolos e rolos de fotografias, e a Noémia luminosa num sorriso contínuo porque falou espanhol durante as férias inteiras. E os espanhois não davam por nada, pensavam que a Noémia era espanhola, e só falavam com ela.

 

O luto pelo casamento da Noémia foi curto, porque a Gumercinda chegou logo a seguir e conquistou de imediato as simpatias do povo. Era muito pequenina e quase magricela, toda vestida de preto pela morte do pai, cabelo apanhado num carrapito preso com ganchos, rosetas nas bochechas de andar ao sol, e muitas soluções. A Gumercinda atirava-se aos problemas como os socialistas nunca se atiraram à cultura, e os problemas tinham medo dela. O primeiro, logo no dia em que aterrou de Mirandela, foi uma saca de batatas que trazia lá para casa, enviada pela família, uma coisa com (informaram-me depois) cinquenta quilos que a Gumercinda alombou até ao fundo da despensa porque o meu pai não se aguentou com o peso escadas acima.

 

A Gumercinda encarregava-se de cortar os pescoços aos perús que recebíamos, de presente, por alturas do Natal. Anos que viva, não me esqueço dos perús, já sem cabeça, a correr ensanguentados pelo terraço, penas por todo o lado e a Gumercinda de pé, satisfeita e vestida de preto, pernas abertas, braços descidos e barriga espetada, empunhando o facalhão e comentando para o meu pai: "Parexe-me que já istá, xenhor ingenheiro". E dava golpes nos cachaços dos coelhos, e murros bem apontados nas batatas que saiam assadas em tabuleiros, para acompanhar bacalhau. E ralhava conosco quando fazíamos asneiras, e punha-nos de castigo no canto da cozinha "a ber che bos acalmais", mas não contava as asneiras quando os meus pais chegavam a casa, poupando-nos as consequências. E a meio da tarde, quando três patos bebés muito amarelinhos que tinhamos trazido do Parque do Alvito começavam a andar de roda dela no terraço, dizia: "Bós tendes fome!" e dava-lhes de comer. Aos patos e a nós. Alheiras maravilhosas que trazia "da terra" e a que eu torcia o nariz, porque era ignorante e preferia um ovo mexido com salsichas.

 

Tinha medo do mar, a Gumercinda. Um medo que lhe tirava a cor e lhe alterava o tom de voz. O meu pai convidou-a uma vez para ir dar um passeio de barco. Ao perceber o terror, insistiu. "Num bou, xenhor ingenheiro! Num bou! Já le dixe que num bou!" E foi no dia em que nós, crianças, percebemos que a Gumercinda não era imortal.

 

Mas também a Gumercinda tinha uma tarefa da sua predilecção: arear os amarelos. E pela maneira como lidava com os perús, os coelhos, e as batatas assadas no forno, nem preciso descrever a fúria com que a Gumercinda se atirava aos amarelos.

 

E depois veio a Júlia, que perguntava "ó menina, quantos quilómetros são daqui às Amoreiras?" porque gostava de centros comerciais. E outra Assunção, esta de Alcains, que despachava os magalas que se metiam com ela na rua, quando ela "binha do supermercade, vunva, vunva por aí fora", e eles ficavam a rir-se quando ela lhes atirava "ide pró diave!". Essa gostava de revistas de moda, abdicava das folgas, e passava os domingos a costurar. Para ela, como é evidente. E andava sempre vestida como as apresentadoras da televisão. E a Rosa, que era de Lisboa e que a sabia toda, que gostava de romances e de amantes, e nos aconselhava (como nunca mais ninguém) sobre como conduzir os nossos namoros de adolescência. Também a Rosa encobria os nossos abusos, e não contava aos meus pais quando eles iam de viagem e nós chegávamos a casa de madrugada, e levávamos gente que ficava para dormir.

 

Por isso é que eu consolidei a seguinte certeza: todas as criadas têm uma tarefa preferida, que desempenham sempre que podem. Seja prever o tempo, passear miúdas pequenas, falar espanhol, esmurrar batatas, arear os amarelos, ir ao centro comercial, costurar vestidos, ou aconselhar assuntos do coração. Destas guardo boas memórias.

 

Nas últimas semanas dei com um fenómeno semelhante, mas agora já não sei onde as vão buscar. As criadas do Expresso, do Público, do Diário de Notícias, de toda a imprensa escrita e de toda a blogosfera não sabem ler nem escrever. Não limpam coisa nenhuma nem ajudam as crianças, e adoram dar palpites sobre "o caso Miguel Relvas".

 

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O processo de genializamento do artista

por Margarida Bentes Penedo, em 16.04.12

 

 

Há uma canção portuguesa que rebenta as escalas do fastio. É aquela do "eles não sabem nem sonham, não sei quê, entre as mãos de uma criaaaaançaaaa". Mas há um estafermo canadiano que faz desta música um exito do funky: chama-se Leonard Cohen.

 

Este maduro, que já nos aborrece há mais de quarenta anos, goza agora de um regime de diuturnidades. É um fenómeno conhecido, mas pouco estudado: os artistas, por cada cinco anos que passam, se sobreviverem, vão ficando mais génios. É o chamado processo de genializamento do artista. Dá-se em paralelo com a fotossíntese, à medida que a tez dos atingidos, mortos de tédio, vai ficando mais verde.

 

Chegados a um certo ponto, estes "agentes culturais" desatam a "obter galardões". De toda a espécie de proveniências. Das mais às menos insuspeitas. E não há príncipe no planeta que não lhes atribua uma merda qualquer.

 

O processo intensifica-se com o aspecto torturado do artista e com a multiplicação das suas valências; no caso presente, temos para todas as inclinações. Depois forma-se uma unanimidade na apreciação das suas coisinhas e voilá: "O Leonard Cohen é um gajo genial".

 

O Leonard Cohen tem ziliões de cançonetas e puézias, composições, novelas e arranjatas. Qualquer delas dá dez a zero no "sonho da criança". É um feito difícil. Diria que é uma proeza olímpica. Se um dia me cruzar com ele, dou-lhe um franco aperto de mão.

 

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A Puézia

por Margarida Bentes Penedo, em 21.03.12
 
 

 

 

 

Comemora-se hoje o "Dia Mundial da Puézia", data que me cumpre assinalar. Esta data traz-me uma grande satisfação, porque vejo a puézia por todo o lado. E a puézia tem muito que se lhe diga.

 

Temos, por exemplo, a puézia popular, que é aquela que costuma vir espetada nos manjericos e nas entrevistas que os sociólogos fazem às pessoas da província. As televisões contribuem com alegria e sentido patriótico para a divulgação deste tipo de puézia, indo recolhê-la aos lares de idosos: ainda há bem pouco tempo, vi uma senhora muito lavadinha, a quem as "auxiliares de prestação de cuidados de terceira idade" tratavam na primeira pessoa do plural (vamos então dizer os nossos versinhos agora, está bem dona Helena?) debitar umas linhas de grande acutilância. São abordados temas de cariz político e grande abrangência geo-estratégica. Os sujeitos são, regra geral, os ricos e os políticos. Costumam, depois de umas voltinhas engraçadas, ser enviados para a França, para a casa deles, para a prisão ou para a puta que os pariu.

 

Noutro patamar, temos a puézia das grandes operadoras de telecomunicações. Este segmento literário costuma ser encontrado nas caixas de email, nos cartões de Natal e no facebook. As frases são sempre afixadas em cima de fotografias com relvados, passarinhos, crianças, mar, túneis de luz, cascatas ou animais domésticos. Os autores não costumam ser mencionados, porque o divulgador já se apropriou daquelas mundividências floridas e o que interessa é a mensagem. Noutros casos, essas frases são assinadas por um leque muito vasto de autores que toda a gente respeita, entre os quais o Dalai Lama, o Confúcio, o Paulo Coelho e a Sophia. Os agentes mais trendy publicam obras centradas no sol, nas praias, e nas "férias na neve". As "férias na neve", só por si, merecem uma reflexão, que fica desde já prometida para quando me faltar assunto. Estes textos entopem o leitor com energias positivas, e as caixas de notificações com ameaças de esperança, que vão desde a fartura em dinheiro à abundância em paz, em saúde ou em pirafos, desde que o receptor se comprometa a partilhar aquilo com uma quantidade bíblica de inocentes.

 

Qualquer uma das versões anteriores se encontra dentro das áreas de expressão artística da minha predilecção. Mas aquela que mais me intriga e, por isso mesmo, mais me fascina, é a puézia erudita. Esta costuma ser divulgada em programas específicos na RTP 2. Por vezes, também agarramos alguns pedaços em entrevistas publicadas nos cadernos de fim de semana dos jornais de grande tiragem. São as chamadas "reportagens de fundo" e chegam-nos através da secção de "cultura".

 

Gosto tanto de "cultura" como gosto de "puézia", principalmente desde que me tenho dedicado a investigá-la e já consegui desvendar alguns segredos. Há várias categorias, bem entendido, e algumas são mais apreciadas do que as outras. Há quem rime e quem não rime, eu prefiro quando rima: sempre temos um trabalhinho bem acabado.

 

Deve ser escura, esta puézia. Não interessa a ninguém uma historieta de sucesso. Para isso temos as conferências sobre "Empreendedorismo, Criatividade e Inovação". As personagens devem ser porcas, desgraçadas, e urbanas. Convém uma luz antiquada, para conferir à coisa o carimbo de qualidade de uma erudição formada na história. E um elemento de modernidade, mas não muito exagerado: uma referência ao cinema chega perfeitamente.

 

Não se dispensam os palavrões: puéta que é puéta projecta o que vê do mundo em todas as suas manifestações, não circunscreve a linguagem a exigências de chazinhos finos. As palavras devem ser "rigorosas" e também "acutilantes". Algumas podem ser inteligíveis.

 

Depois precisamos de um enredo. Imaginemos um idiota deprimido, sentado num café, a emborrachar-se com uma porcaria qualquer. Olha para a empregada de mesa e confunde-a com uma actriz (convém ser estrangeira, mas não americana). Enche-se de entusiasmo (obrigatória uma referência às "pulsões sexuais", que são "identitárias"), avança em direcção a ela, e faz-lhe uma proposta indecente.

 

Por fim, falta seleccionar os sons (atentos que devemos estar à "musicalidade do puema") e distribuir os factores numa composição toda entrecruzada. O título deve ser uma parvoíce.

 

Segue um exercício, para provar que existe uma puitiza dentro deste carroceiro que vos escreve.

 

A possidónia

 

De tarde, miserável sobre um cálice de absinto,

Perturba-me a gordura de uma epopeia morta,

E atrás de uma vidraça, a cintura da Binoche;

 

Como uma ideia espessa, contenho uma comporta,

Num passo indispensável, seguro num jacinto,

E rogo à criatura que me faça, ali, um...

 

(Só é chato quando não se consegue encontrar uma rima.)

 

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O problema com as nossas cidades

por Margarida Bentes Penedo, em 30.01.12

 

 
Hoje decorreu no Teatro São Luiz o debate "Rejuvenescimento e Identidade Cultural de Lisboa", organizado pela respectiva Assembleia Municipal. Isto é o que eu penso do assunto, e foi isto que fui lá dizer:
 

As cidades são uma das primeiras expressões de identidade cultural. Os centros históricos das cidades portuguesas têm vindo a morrer.

 

Sucessivos governos, tanto centrais como locais, não conseguiram resistir a duas tentações. A primeira foi a da promiscuidade com os grandes promotores imobiliários. A segunda foi a tentação de "deixar obra". Uma e outra conduziram ao desvio de massa construída para os subúrbios das cidades, onde havia espaço. Não só havia espaço como este era relativamente barato. Compravam-se terrenos agrícolas, faziam-se uns truques com os Planos Directores Municipais, alteravam-se as manchas de ocupação, convertia-se aquilo em zona urbana, subiam-se os índices permitidos (de ocupação, de impermeabilização, etc.), e estava encomendado mais um conjunto de fogos. Não vou falar no mal que isso fez à economia, que foi muito. Mas vou falar no mal que isso fez aos centros históricos das cidades, que não foi menos.

 

O objectivo de fazer política social de habitação à custa da banca arruinou o que sobrava do mercado de arrendamento. Durante muito tempo, em lugar de resolver o problema eleitoralmente sensível da legislação sobre as rendas, o Estado entendeu-se com a banca para oferecer toda a espécie de vantagens à concessão de crédito, com juros muito baixos, sobreavaliação dos imóveis e ausência de cálculo dos riscos de incumprimento. Com isto, o Estado convenceu-se que não existia um problema de habitação em Portugal. Convenceu os cidadãos que era possível e normal que as famílias fossem proprietárias das casas em que viviam. Às vezes, também das casas de férias. E elevou a aquisição de casa própria a níveis delirantes. Hoje, muita gente não consegue pagar as prestações e olhamos para um país repleto de trambolhos devolutos.

 

Enquanto isto acontecia, os centros históricos ficaram quase exclusivamente entregues à iniciativa de particulares. Aí o Estado actuou de outra maneira. Criou gabinetes técnicos (muitas vezes empresas municipais, as famosas Sociedades de Reabilitação Urbana) destinados à "defesa" das chamadas "zonas sensíveis" (defesa contra quê? Ou contra quem?). Inventou toda a espécie de entraves ao licenciamento urbanístico. Acrescentou a complexidade da regulamentação, a morosidade das respostas, os valores absurdos das taxas e impostos, e o último recurso dos incompetentes: meter o nariz em tudo e colocar as decisões ao nível do "gosto" (isto assim fica um bocadinho desenquadrado, ficava mais bonito se as mansardas fossem em "em bico", porque é que não se tira este revestimento e se põe antes um que seja mais "a condizer" com a "traça antiga", etc.). Este "gosto" foi debatido de um lado da mesa por arquitectos municipais que nunca exerceram a profissão, e do outro lado por artistas saídos em tabuleiros das dezenas de faculdades de arquitectura que, com a escassez de trabalho e deficiência de formação, estavam desejosos de "deixar marca". Assim nasceram uma série de híbridos, negociados de forma a garantir que o resultado final era caríssimo, ia contra a vontade de todos e tinha o parecer favorável das entidades competentes. Quem se meteu nisso uma vez, raramente repetiu. Na impossibilidade de rentabilizar o seu património, muitas vezes envolvido em processos complicados de natureza cadastral, as pessoas foram desistindo. E o interesse público, que o Estado devia defender, transformou-se em desinteresse generalizado.

 

Importa que o Estado comece por reabilitar os seu imóveis devolutos (em Lisboa, por exemplo, é o maior proprietário). E para se dar ao respeito, tem que reabilitar estes imóveis no mais absoluto cumprimento da legislação que obriga os particulares a cumprir. Importa que o Estado cumpra também os prazos legalmente estipulados para dar resposta aos pedidos de licenciamento. Que torne claros, públicos e razoáveis os valores que cobra pelas operações urbanísticas. Que reforme a legislação que regula a reabilitação de edifícios, designadamente a das acessibilidades e a do comportamento térmico, de modo a garantir que a mesma seja inteligível, aplicável e sensata.

 

O Regulamento das Características do Comportamento Térmico dos Edifícios é um dos mais exigentes da Europa. Se não for o mais exigente. O que é curioso num país com amplitudes térmicas relativamente reduzidas (porque estamos no Sul e porque estamos junto ao mar), e com um construção tipicamente pesada em termos de inércia térmica. A inércia térmica de um edifício é a capacidade de resistência a variações térmicas no seu interior, provocadas por alterações térmicas no exterior. Mas o referido regulamento não permite sequer considerar o valor real da inércia térmica dos elementos construtivos; estabelece valores máximos de 150 Kg/m2 ou de 300 Kg/m2 consoante os elementos estejam ou não em contacto com o exterior. A exigência deste regulamento obriga a cálculos complicadíssimos para as situações de Inverno e, da última vez que me informei, as DOZE entidades conhecidas que o concertaram e elaboraram (porque ainda são referidas as "associações representativas do sector", cuja identidade não é revelada) preparavam-se para aplicar o mesmo detalhe aos cálculos das situações de Verão.

 

Independentemente da complexidade dos cálculos, e das soluções construtivas que este regulamento exige, poder-se-ia pensar que os resultados eram bons. Mas não são. A maior parte das vezes, o seu cumprimento resulta num gasto incomportável em consumos energéticos mensais.

 

Com o regulamento das acessibilidades acontece a mesma coisa. As exigências são de tal ordem abrangentes que, para conseguir cumpri-lo, os promotores vêm-se obrigados a fazer obras caríssimas, em locais muitas vezes incompatíveis com a própria morfologia dos edifícios, o que os torna absurdos quando não os torna inabitáveis.

 

Seria bom que o Estado validasse as opções conjuntas dos proprietários e dos técnicos responsáveis pelos projectos e pelas obras, retirando as trapalhadas do caminho e permitindo aos cidadãos criar e habitar as suas cidades de acordo com a sua identidade cultural. De outra forma, não chegaremos sequer a conhecê-la.

 

Importa, por isso, que o Estado desista da ideia de se defender dos cidadãos. O bom-senso dos cidadãos tem-se mostrado, em muitas situações, infinitamente superior ao das entidades supostamente criadas para lhes dizer como devem habitar, limitando-lhes as opções em nome de uma escolha mais correcta. É preciso arriscar e absorver algumas escolhas erradas. Não é nenhum drama, nem é irreversível. O drama é deixar morrer.

 

As cidades mais interessantes, mais confortáveis e mais civilizadas evoluiram sempre de forma orgânica, mais apoiadas na manutenção do que na construção. Responderam às necessidades de cada geração sem impedirem que as gerações seguintes pudessem responder às suas. Isto define uma cultura.

 

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Is TUA the new black?

por Ana Rita Bessa, em 07.12.11

Barragem do Tua põe em risco Património Mundial no Douro

"O Comité do Património Mundial da UNESCO considera que a construção da barragem de Foz Tua tem um "impacto irreversível e ameaça os valores" que estão na base da classificação do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial. Esta é uma das conclusões do relatório da missão consultiva que, a solicitação do Governo português, visitou o local no início de Abril e que aponta ainda para outros impactos negativos e graves do empreendimento. O documento foi produzido pelo Icomos, uma associação de profissionais da conservação do património que é o órgão consultivo daquele comité da UNESCO."

(in Público, 7/12/2011)

Por natureza, simpatizo com a causa cultural. 

Por feitio, não teço considerações sobre o que não estou informada.
Por graça, não resisti a mencionar esta sensação de dejá vu...

 

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Toiros - Aos Srs. Deputados e não só

por João Monge de Gouveia, em 01.10.11

Na quinta feira à noite um dos forcados de Montemor resolveu brindar a sua pega aos deputados da Assembleia da República presentes na praça.

 

Para eles e para todos os outros deputados, aficionados (como eu) e todos os Portuueses, principalmente também para aqueles que nos quererm tirar a liberdade de assitir a uma corrida de toiros, aqui fica o brinde feito:


" Senhoras e Senhores Deputados:
Para que nunca nos seja retirada a liberdade de termos a nossa cultura, para que nunca nos seja retirada a liberdade de virmos aos toiros e para que continuemos a ser um país de gente livre, é com grande honra e com enorme prazer que, em meu nome e em nome do Grupo de Forcados Amadores de Montemor-o-Novo, lhes brindo esta minha pega!
Vai pelos Senhores e por todos os aficionados deste país !!”

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"Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, modas, maneiras, pilhérias, tudo vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssimo, com os direitos de Alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas..."
Eça de Queiroz, in Os Maias




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