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"Que se lixe" quem?

por João Lamy da Fontoura, em 02.03.13

A manifestação deste Sábado, 2 de Março, vem sendo anunciada sob o mote "que se lixe a troika". Não sei qual será a sua dimensão, nem é nisso que aqui atento. Também ignoro o modo como se processará - embora queira crer que tudo correrá pelo melhor, com a preservação dos direitos de quem se manifeste, de quem não se manifeste e de quem, por dever de ofício, a acompanhe. E quero crê-lo porque, quanto mais não seja, a minha propensão para manifestações evolui na razão directa do peso da carga fiscal. Mas acontece que o mote da manifestação de mais logo me parece laborar num triplo equívoco - e, por isso, aquela propensão vai permanecer contida.

 

O primeiro equívoco é que a afirmação "que se lixe a troika" aparenta ter como pressuposto que a situação com a qual nos defrontamos não teria outra origem que não a própria troika. Só que a troika não invadiu Portugal: foi convidada a entrar. E foi convidada a entrar porque o país - que se endividou para além do razoável, fosse por se pensar que o dinheiro apareceria sempre, que a conta nunca seria apresentada ou por outro motivo qualquer - deixou de ter condições financeiras para continuar, sustentadamente, por si mesmo. 

 

O segundo equívoco é que a proclamação "que se lixe a troika" aponta para o desiderato de pôr fim ao programa de assistência financeira presentemente em curso independentemente do que a mesma troika pense ou deixe de pensar sobre o assunto. O problema desta perspectiva é que é duvidoso que alguém em Washington, em Bruxelas ou em Frankfurt fique mais lixado com isso do que nós mesmos. Realmente, por muito lixada que seja a troika, ou por muito lixado que seja ter a troika em Portugal, talvez não seja despiciendo ponderar a possibilidade de a saída extemporânea da troika nos lixar mais a nós do que a ela.

 

O terceiro equívoco reside na ideia de que as coisas - num Estado que se quer de direito e democrático - poderiam ser muito diferentes sem a troika. Não vejo como poderiam sê-lo. É que, como alguém disse em tempos, mas de uma forma que permanece actual: 

 

«One of the great debates of our time is about how much of your money should be spent by the State and how much you should keep to spend on your family. Let us never forget this fundamental truth: the State has no source of money other than money which people earn themselves. If the State wishes to spend more it can do so only by borrowing your savings or by taxing you more. It is no good thinking that someone else will pay—that "someone else" is you. There is no such thing as public money; there is only taxpayers' money.»

 

É isto mesmo que, parece-me, se evidencia na situação que atravessamos: no fim do dia, quando o Estado gasta ou se endivida, somos nós que pagamos essas despesas e essas dívidas - mesmo que o valor a desembolsar seja lixado. Com troika ou sem troika. É tempo de nos apercebermos disso - e de termos as nossas vidas de volta.

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12 comentários

De Tó Zé a 02.03.2013 às 10:27

Ouça, eu vou à manifestação (estou quase a sair para apanhar o comboio para Paris, vivo em Bruxelas), mas a troika não tem de sair de Portugal. O que eu gostaria que alguém se lembrasse é que há pessoas que têm de ir viver para outros países porque não têm trabalho em Portugal. Simultaneamente essas pessoas deixam de consumir e pagar impostos em Portugal (coisa triste). Para além disso, talvez o objetivo não seja mandar embora a troika. Já pensou que uma das coisas que se pode querer é que um país que contribui com dinheiro para o FMI e para a UE seja recebê-lo quando estão em dificuldades, sem pagar juros? Já pensou que em Portugal se pode direcionar a austeridade? Não sei se sabe, mas Portugal tem um mercado de luxo maior e mais sólido que o espanhol (país muito, mas muito maior que Portugal). Se calhar em Portugal não há falta de dinheiro para cobrar, se calhar há falta de equidade a cobrar esse dinheiro. Se calhar o governo apoiado em grandes fortunas não quer que as grandes fortunas (benificiárias de PPPs, entre outras coisas) paguem as despesas do Estado Social, redistributivo. Se calhar, o que falta em Portugal é lembrarmo-nos que uma das bases do Estado Social não é "o pobre paga mais que o rico", mas "o rico paga mais que o pobre" e todos recebem em igual medida.

De João Lamy da Fontoura a 02.03.2013 às 14:30

Ouço, com certeza. Obrigado pelo seu comentário.

Asseguro-lhe que há quem se lembre (mais do que isso, quem tenha, permanentemente, presente) que muitos de nós saem de Portugal porque não têm cá trabalho. Aliás, vai sendo cada vez mais difícil encontrar famílias em que pelo menos um dos seus membros emigrou, sem perspectivas de regresso nos próximos anos. Pergunta-me se já pensei em alguns aspectos que menciona. Respondo-lhe que sim. O meu ponto não é esse. O meu ponto é que o contexto em que o país vive (nele se incluindo as consequências do programa de assistência financeira) não tem origem na troika. Tem uma origem anterior, que não é imputável à troika, mas ao país – a nós próprios. Por outro lado, não sei se Portugal tem um mercado de luxo maior ou mais sólido do que o espanhol. Nem sei o que entende, concretamente, por mercado de luxo. Ou que sugere a esse respeito: que se carregue sobre esse sector mais do que nos outros? E os trabalhadores (e os postos de trabalho) ligados ao mercado de luxo? Também não estou a ver se há ou não falta de dinheiro para cobrar: o que me parece – e por isso até começo o post pela carga fiscal – é que o peso dos tributos é muito elevado. Quanto ao Estado Social: confesso-lhe que não vejo por que vê-lo como baseado, entre outros aspectos, na ideia de que «não é "o pobre paga mais que o rico", mas "o rico paga mais que o pobre"»: no meu modo de ver, o que releva no Estado Social é a dimensão prestacional da actividade do Estado, traduzida em facultar o acesso a determinados bens a quem deles careça e de outro modo não os alcance – pelo que também não me parece que tal implique que todos recebam em igual medida. Não pode, perfeitamente, haver quem não se justifique que careça de (ou quem não queira receber) apoio do Estado para aceder a determinado bem considerado relevante no quadro do Estado Social?

Boa viagem a Paris e bom regresso a Bruxelas.

De Tó Zé a 02.03.2013 às 20:19

Até sairmos de Portugal, a minha esposa trabalhava uma empresa diretamente ligada a um mercado de setor mais elevado que não vou revelar o nome. Posso-lhe garantir que a empresa tinha cada vez mais cliente com muito mais dinheiro. Não vou referir o nome da empresa para não prejudicar ninguém, no entanto garanto-lhe que está ligado à venda de roupa para um setor elevado.
É claro que existem problemas muito anteriores à entrada da troika, sendo que grande parte desses problemas foram diretamente causados por José Sócrates e Aníbal Cavaco Silva (enquanto primeiro-ministro, há já alguns anos). Quanto a Guterres e Durão Barroso, não os considero grandes culpados, para além de terem prepetuado a situação de Cavaco. É óbvio que Portugal precisa de reestruturar o Estado, podemos começar por colocar máximos de vencimentos, incluindo reformas, em 4500€ por mês. Depois, deviamos juntar as estruturas de topo e de comando das forças armadas, reduzir o número de efetivos e aumentar a capacidade operacional do que restar do exército. Podemos atrair investimento estrangeiro através das energias renováveis (aquelas que o governo queria extinguir quando me fui embora). Podíamos fazer muita coisa, mas preferimos despedir as pessoas, deixá-las sem poder consumir e tentar tirar à força o Estado Social, que é o único motor da economia nacional (o Estado Novo encarregou-se de não permitir o crescimento económico durante anos para não ter de lidar com grandes massas de assalariados). Basicamente, Portugal nunca teve um setor produtivo eficiente, mas vão tirar o Estado que é a única coisa que mantem os portugueses vivos. As outras opções podem ser más, mas este governo consegue ser a pior opção de todas.

De João Lamy da Fontoura a 03.03.2013 às 18:15

Caro Tó Zé, acredito que há sempre opções piores, incluindo opções muito piores.

De murphy a 02.03.2013 às 10:34


Vendo televisão, ouvindo a rádio e lendo os jornais ao longo desta última semana, devemos concluir que uns 95% do povo estará hoje na rua...

http://jornalismoassim.blogspot.pt/2013/02/o-wishful-thinking-das-redaccoes-vs-o.html

Desta vez é mais claro no discurso dos inúmeros organizadores que o objectivo é o "derrube do governo", lá estará a JS (e outros adoradores de Socrates) a participar na manif...

Esperemos pois que esta seja a "maior manifestação de sempre" e que no dia seguinte, Portugal esteja curado. Talvez as manifestações anteriores, embora tenham sido as "maiores de sempre", não tenham sido as "maiores" em grau suficiente... Afinal, a Grécia, por ex., não foi graças às suas "enormes" manifestações que resolveu os seus problemas?


De João Lamy da Fontoura a 02.03.2013 às 14:33

Obrigado pelo seu comentário. Para já, aguardemos pelas contagens.

De Ana Santos a 02.03.2013 às 20:56

É curioso ver as pessoas na rua a manifestar-se contra a troika, contra o governo contra isto e contra aquilo. Eu tenho 29 anos e não me revejo nestas manifestações porque se formos ver todos temos a culpa do que estamos agora a passar. Não é só o Estado que é culpado, então como é que existe tantas famílias endividadas, será que os portugueses não se endividaram até aos ossos e nunca pensaram que um dia a bolha rebentava, vivíamos muito acima das nossas possibilidades, todos queriam casa própria, uma casa de férias, uma vivenda, ter o último telemóvel da moda, ter automóveis será que é o Estado o culpado pode ser, mas as dívidas que as famílias têem hoje é graças à falta de consciência dos portugueses. Que gastaram o que tinham e o que não tinham. Era empréstimos bancários para tudo, para a casa, o carro, o consumo e um dia a bolha rebentava e foi tudo ao ar.

Quando se vê na televisão os portugueses a emigrarem para o estrangeiro e vemos que lá fora fazem todo o tipo de trabalho e trabalham 60 ou 80 horas semanais, aqui em Portugal alguém quer fazer algum tipo de trabalho, alguém quer trabalhar mais de 40 horas semanais.

Eu abri uma loja de produtos regionais há 2 anos, quando a crise estava a começar, decidi aventurar-me por esta via e posso dizer que exporto produtos para os 4 cantos do mundo, seja de Marrocos, da Austrália aos EUA. Tem semanas que trabalho mais de 60 horas para organizar as coisas, tenho empregados que se fazem mais 1 hora num dia estão logo a reclamar, ninguém faz um esforço por nada.

Aqui, em casa as coisas aparecem com o meu suor e o meu trabalho e nada cai do céu, não desejo que a Troika se vá embora antes de endireitar o país, porque acredito que após a saída da Troika o país vai novamente reerguer das cinzas.

Deixo-lhe uma pergunta, como é que foi possível o PS ter sido o 2º partido mais votado, partido esse que levou o país à entrada do FMI e ter tantos votos nas urnas. Eu votei no PSD e se hoje houvesse eleições votaria novamente no PSD, porque não vejo mais ninguém com competência para ir para lá.

De Tó Zé a 03.03.2013 às 16:38

Sinceramente acredita que o PSD tem pessoas competentes que podem acabar com a crise? Tem vistas assim tão curtas? Se a senhora tem uma empresa exportadora, tudo bem, mas se estivesse apenas focada apenas no consumo interno teria cada vez menos oportunidades de escoar os produtos, porque não teria ninguém com dinheiro para os comprar. Como diz um amigo meu, professor de economia, "não é possível ter uma economia saudável sem que as pessoas tenham dinheiro para viver e gastar". O que se passa no sul da Europa é que as pessoas têm cada vez menos dinheiro para viver e gastar.

PS: Como português a viver e trabalhar no estrangeiro informo-a que trabalho apenas 30 horas semanais e recebo o triplo do que recebia em Portugal.

De João Monge de Gouveia a 03.03.2013 às 17:15

Tó Zé,

Diga-me sinceramente, ganha o triplo e trabalha menos horas. Não sei em que País reside, mas embora trabalhem menos horas a produtividade não é maior??
E apesar de ganhar o triplo, quanto uma custa arrendar uma casa? e jantar fora?
Sabe quem em Portugal há funcionários públicos que se recusam a obedecer a uma ordem legítima de um superior hierárquico. Quem produzem muito pouco apesar das horas de trabalho e que se recusam a trabalhar e nada lhes acontece.
O Problema aqui está na mentalidade das pessoas, mas também o saber que podem fazer o que quiserem que nada lhes acontecerá, e por causa disso ando eu e muitas outras pessoas (e se calhar o To Zé que teve que sair de Portugal) a pagar mais impostos.
Em primeiro tem que haver uma mudança de mentalidade, e se calhar antes disso temos que reformar o Estado, mas fazê-lo como deve ser.

De João Lamy da Fontoura a 03.03.2013 às 18:21

Pela minha parte, creio que haverá pessoas competentes em vários sítios: no PSD ou fora dele, à esquerda ou à direita. Mas pergunto-me se a solução (ou as soluções) não poderia passar por fora dos partidos (e do Estado e da actuação dos poderes públicos) e pela libertação ("libertação" para não dizer menos impostos, menos burocracia e menos sugestão de caminhos a seguir pelos particulares) das energias do país.

De João Monge de Gouveia a 03.03.2013 às 17:08

Ana,
O seu texto mostra que ainda há pessoas que conseguem perceber a realidade do nosso País.
Eu não posso aceitar que haja muitas pessoas, a quem nós pagamos o ordenado, que não trabalham.
Eu não posso aceitar que as pessoas não assumam a sua quota parte de culpa de tudo o que se está a passar.
Mas assim é o Português, sempre a sacudir a "agua do capote".

De João Lamy da Fontoura a 03.03.2013 às 18:14

Obrigado, Ana Santos, pelo seu comentário e pelo seu testemunho. Percebo o seu ponto, relativamente ao qual sublinharia, apenas, que o endividamento do Estado é o endividamento de todos. Quanto à pergunta que coloca, dir-lhe-ia que alguns mistérios permanecerão sempre insondáveis. Em qualquer caso, admito que quem queira votar à esquerda não tenha muitas alternativas.

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