Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Palpite no nevoeiro

por José Meireles Graça, em 14.08.14

Deus me livre de entender o mecanismo da moeda - ninguém o entende, senão não haveria tanta doutrina contraditória, e a diferença entre os especialistas e os leigos é que os segundos estão conscientes da própria ignorância.

 

Os bancos podem emprestar, e emprestam, o dinheiro confiado à sua guarda; e só isto mostra que o lubrificante desta máquina enigmática é a confiança, mesmo que não emprestassem mais do que a soma do seu capital com os depósitos.

 

Confiança, então, em que os depósitos não se vão esfumar por os empréstimos que o banco com eles fez (mais os empréstimos que fez com outros recursos alheios) serão tempestivamente reembolsados; e que, se assim não for, a mesma entidade que é responsável pela emissão de moeda, e que castiga com tradicional severidade quem a falsifique - o Estado - responderá, nem que para isso tenha que imprimir dinheiro, punindo de caminho os responsáveis, em caso de dolo ou desrespeito das regras da arte.

 

Se admitimos que a actividade bancária seja privada (e admitimo-lo porque não há economias de mercado em que a actividade bancária esteja vedada aos privados e porque a banca, se fosse toda pública, seria clientelar por definição, enquanto a privada o é - espera-se - por excepção), então temos o direito de exigir que o Estado não tenha menos cuidado na supervisão do que o que dedica à vigilância e repressão do crime de moeda falsa.

 

Sucede porém que, na nebulosa história do BES, o BdP não se limitou a não ver o que se passava, sob pretexto de que os criminosos ou imprudentes, se o eram, não tiveram a delicadeza de chamar a atenção para os seus crimes ou comportamento suicidário; induziu em erro milhares de pequenos accionistas com anúncios tranquilizadores.

 

Os bancos não podem viver sem depositantes, mas também não podem viver sem accionistas. E na engenhosa solução encontrada a mensagem que passa são duas certezas e uma dúvida, por esta ordem: investir em bancos é o mesmo que investir na Fábrica de Sabões Nova Esperança ou na start-up Informática Conimbricense; o BdP é uma delegação do Banco Central Europeu; e os contribuintes não vão encostar a barriga ao balcão.

 

Tenho poucas esperanças que algum dia se venha a saber o que exactamente se passou, porque haverá demasiada gente que só pode falar verdade incriminando-se ou, no mínimo, saindo mal na fotografia.

 

Mas sei que a solução foi cozinhada em Frankfurt; que a burocracia europeia não está preocupada com outra coisa que não seja o ideal europeu; e que a quebra de confiança nas instituições - os bancos são instituições, não são empresas - de uma distante província do Império parecerá um pequeno preço a pagar pela estabilidade.

 

Razões por que, de todos os palpites, este me parece o mais razoável.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Não era mais fácil ao Lim comprar o Benfica

por João Monge de Gouveia, em 10.08.14
Bernardo, Cancelo e Cavaleiro vendidos ao fundo detido por Peter Lim

http://www.record.xl.pt/Futebol/Nacional/1a_liga/Benfica/interior.aspx?content_id=898945

Autoria e outros dados (tags, etc)

Às avessas

por José Meireles Graça, em 04.08.14

 

Não perdi um cêntimo nas trapalhadas do BES, porque não era accionista. E todavia sou um dos perdedores: cada banco tem a sua cultura, e os meus mais de 30 anos como cliente de bancos (cliente, não fornecedor - na estranha terminologia corrente os mutuários são considerados clientes mas os depositantes também) autorizam-me a hierarquizar os bancos, do ponto de vista deste pequeno empresário: o BES é, era, melhor.

 

Será agora, se tudo correr bem, um banco como os outros.

 

Quer dizer que a estúpida concentração de poderes decisórios em organismos centrais será, crescentemente, a regra; a supervisão do Banco de Portugal, aliás uma patente e patética sucursal do BCE, que se refugiou aquando do escândalo BPN na desculpa de os infractores não terem alertado o supervisor para as infracções que praticavam e que agora adoptou precisamente a mesma linha de defesa, continuará a multiplicar os controles burocráticos sobre a actividade bancária e, sobretudo, sobre as empresas; e a concorrência entre os bancos, que aliás nunca foi intensa senão na publicidade e na conquista de grandes clientes, sofrerá mais um golpe.

 

A solução encontrada é uma cedência à opinião de esquerda, para que esta não possa com facilidade dizer que o dinheiro do contribuinte foi mais uma vez utilizado para salvar capitalistas especuladores e corruptos; é uma cedência a certa opinião liberal, que defende a falência dos bancos, que são instituições, nos mesmos termos que a das empresas, que não são - e se os accionistas perderam todo o capital investido é de falência que estamos a falar; é uma cedência ao Banco de Portugal, que salvou a situação na 25ª hora, a ver se nos esquecemos da cegueira nas anteriores, enquanto ingénuos continuaram a "investir" no BES (teria sido um deles, fiado no oficialmente propalado interesse de outros bancos); e é um golpe na concorrência, dado que os outros bancos passam a ter interesse na sobrevivência do novo.

 

Hábil, sem dúvida. Todos ganham, menos a família Espírito Santo - mas bem o mereceu; uns quantos pequenos empresários - mas o que é que as pequenas empresas interessam, realmente?; e uns quantos investidores em papéis seguros - mas é uma lição, para aprenderem que as instituições não são de fiar.

 

Não desejo que corra mal, ainda que possa acontecer - o diabo está com frequência nos detalhes e no imprevisto. Mas na lista dos perdedores parece-me justo incluir também a confiança. E essa devia ser, se não me engano, o principal capital dos bancos - e das instituições que em nosso nome os supervisionam. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Musica da Semana - BES Novo Banco

por João Monge de Gouveia, em 04.08.14

Este filme tinha como titulo em Português, o Bom, o Mau e o Vilão. Neste caso temos o Banco Bom, o Banco Mau e o Vilão que será quem originou tudo isto.

 

A musica da semana dados os acontecimentos deste fim de semana

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


"Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, modas, maneiras, pilhérias, tudo vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssimo, com os direitos de Alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas..."
Eça de Queiroz, in Os Maias




Comentários recentes

  • Swonkie

    Olá :) Enviamos um convite para o teu email. Caso ...

  • silva

    Como é possivel não cair! Se a corrupção que segun...

  • silva

    Como é possivel não cair! Se a corrupção que segun...

  • batidasfotograficas

    Para terem mais tempo para a família! Seria bom qu...

  • Tiago Sunzu

    Obrigado pelo seu comentário construtivo e com tan...




Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D






+18314 até 8.8.11 no Blogspot

subscrever feeds